Cena de Tartarugas Até Lá Embaixo (Reprodução)

Créditos da imagem: Cena de Tartarugas Até Lá Embaixo (Reprodução)

Filmes

Crítica

Tartarugas Até Lá Embaixo faz receita simples de boas intenções e boa execução

Diretora Hannah Marks e estrela Isabela Merced seguram adaptação de John Green na ponta dos dedos

Omelete
4 min de leitura
03.05.2024, às 16H27.

Em uma cena lá pela metade de Tartarugas Até Lá Embaixo, a protagonista adolescente Aza Holmes (Isabela Merced) está em seu quarto trocando mensagens com o crush de infância Davis (Felix Mallard), logo depois de um date idílico na mansão do rapaz. Quando a conversa esquenta um pouquinho (lembrando da vergonha da moça quando os dois decidiram dar um mergulho na piscina, ele garante a ela que “gosta muito do seu corpo), Merced deixa um flash milimetricamente calculado de surpresa e excitação perpassar seu rosto, sentando-se na cama com os olhos brilhando enquanto seguem colados no celular, e digita com um sorriso no rosto uma resposta igualmente atrevida - mas igualmente dentro da classificação indicativa suave do longa, é claro.

É talvez o melhor momento do filme, um farol de identificação teen ligeiramente subversivo plantado no meio da tragicomédia terapêutica urdida por John Green, e a culpa é toda de Merced (excelente durante todo o filme) e da diretora Hannah Marks. Anteriormente conhecida como atriz (Awkward, Dirk Gently, etc.), Marks chega ao seu quarto longa-metragem exibindo força estilística afiada. Um exemplo fácil: no livro, o Transtorno Obsessivo-Compulsivo de Aza se manifesta em espirais paranoicas que resvalam no fluxo de consciência. No filme, Marks junta forças com a montadora Andrea Bottigliero (Sierra Burgess é uma Loser) para traduzir essas fugas tangenciais tingidas de medo em inserções súbitas de imagens de micróbios e bactérias no meio das encenações.

É um atalho que pode parecer fácil, mas que cai bem dentro do simulacro de adolescência hipster que Marks constrói e desconstrói aqui. A tese central dela é que Aza não é a única que, perdida em desajuste social perpétuo diante das dificuldades impostas pelo TOC, sofre para encontrar seu lugar no mundo e para convencer aqueles ao seu redor que sim, está tudo bem, ela sabe ser cool. A dinâmica entre a protagonista e sua melhor amiga, Daisy (Cree, fonte infalível de carisma e energia quando o filme mais precisa) é de nerdice desajeitada; a relação dela com Davis se constrói em cima de traumas compartilhados; com a mãe (Judy Reyes) ela tem encontros e desencontros tímidos, e com a terapeuta (Poorna Jagannathan) confrontos dialéticos rígidos, coloridos por ressentimento.

Tartarugas Até Lá Embaixo, enfim, é a história de vidas alicerçadas em um medo irracional de se revelarem imperfeitas, de “perderem a pose” - e, também, de como os donos e donas dessas vidas reencontram a ideia de que o amor que sentem uns pelos outros é o bastante para passar por cima (ao menos, por enquanto) dessas imperfeições. Um pouco disso já estava no livro de Green, sem dúvida, e mais um pouco se deve ao trabalho dos roteiristas Isaac Aptaker e Elizabeth Berger (dupla da série This is Us), que escolhem bem quando podar as idiossincrasias do autor para traduzi-lo a um pouco não convertido, ou quando essas idiossincrasias funcionam a favor do charme ligeiramente desajustado do filme. 

Mas quem segura essa narrativa na ponta dos dedos, quem impede que ela se entregue a uma pieguice artificial, a uma tentativa meio patética de brincar de thriller de detetive, à moralização barata sobre saúde mental - enfim, a todas as armadilhas que são inerentes do dramalhão teen -, é Hanhah Marks. Nas mãos da diretora, esse é um mundo que parece crível, que mantém não só a autenticidade de sua narrativa personalíssima sobre o TOC, mas também que encontra o seu romantismo utópico a partir de um caminho que não parece construído para chegar nele. Se, para Green, o amor é “tanto como quanto por que” nos tornamos quem somos, essa adaptação de Tartarugas Até Lá Embaixo acerta em cheio ao dispensar com um aceno de mão a perfumaria do subgênero em que ele transita.

Ao invés de se preocupar com isso, o filme se ocupa com buscar evidências desse amor do qual Green fala dentro das relações que ele constrói, e em explicitá-las com doses iguais de ternura e assertividade - dando a elas uma forma, enfim, que nem sua protagonista, absorta em espirais paranoicas sobre micróbios e bactérias, seria capaz de ignorar.

Nota do Crítico
Ótimo
Tartarugas Até Lá Embaixo
Turtles All the Way Down
Tartarugas Até Lá Embaixo
Turtles All the Way Down

Ano: 2024

País: EUA

Duração: 111 min

Direção: Hannah Marks

Roteiro: Isaac Aptaker, Elizabeth Berger

Elenco: Poorna Jagannathan, J. Smith-Cameron, Judy Reyes, Isabela Merced

Onde assistir:
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