Tá Rindo de Quê?

Créditos da imagem: Bretz Filmes/Divulgação

Filmes

Crítica

Tá Rindo de Quê?

Documentário relembra como o humor no Brasil fez resistência à ditadura militar na TV, no teatro e no impresso

Mariana Canhisares
23.04.2019
16h39

“Fiquem tranquilos os poderosos que têm medo de nós: nenhum humorista atira pra matar”, escreveu Millôr Fernandes. Não há dúvida de que ele tinha razão: o humor pode causar muito mais do que apenas riso. Não à toa, durante a ditadura militar no Brasil, a comédia na TV, no teatro, no cinema e no impresso foi acompanhada de perto. Mas, mesmo com um regime tão duro de censura, tortura e perseguições, floresceram no país diferentes maneiras de zombar e criticar nesse cenário. O trabalho destes tantos homens e mulheres são o tema de Tá Rindo de Quê?, documentário do trio de diretores Cláudio Manoel, Álvaro Campos e Alê Braga que analisa a criatividade e a resistência do humor em um período sombrio de nossa história.

O filme se sustenta nos seus numerosos depoimentos, sem se preocupar em criar uma tese que os una. Na realidade, a intenção ao apresentar as diferentes opiniões e abordagens é dar um panorama para o espectador da produção cômica ao longo de quase duas décadas. Por isso, não se vê apenas o humor crítico e afiado sobre a política brasileira, mas também a comédia de personagens de Jô Soares e a experimentação do grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone. Assim, a narrativa se organiza em blocos temáticos, um recurso que pode não ser inventivo, mas é didático e serve muito bem ao propósito dos diretores.

Dentro dessa proposta, Tá Rindo de Quê? destaca quem foram os humoristas mais importantes de cada vertente. Na maioria das vezes, essas ênfases são bem-vindas e equilibradas. Mas, em alguns momentos, o filme dá espaço demais para falar sobre algo que o público está cansado de saber, como as contribuições de Chico Anysio. É inegável que ele foi um dos grandes nomes do humor do país e, por isso, não se poderia fazer um documentário do tipo sem mencioná-lo e olhá-lo com um pouco mais de atenção. Porém, dedicar praticamente um segmento inteiro para falar dele acaba criando uma quebra de ritmo e uma assimetria dentro da narrativa. Perde-se, então, a oportunidade de tratar do trabalho de outros nomes importantes que nem sempre ganham os holofotes, sobretudo das mulheres.

As humoristas brasileiras têm um espaço restrito no documentário. Suas percepções e vivências estão praticamente condensadas em um momento, sem que nem sempre se dê o mesmo peso que seus pares homens. É evidente que pensar na produção do humor sob a ótica feminina é interessante, tendo em vista o espaço limitado que era concedido para elas através do tipo “burra e sexy”. No entanto, não colocar suas vozes nos momentos mais gerais é, em alguma medida, desvalorizar suas contribuições. Esse descompasso é amenizado conforme o longa se encaminha para o seu final. Mas, de todo modo, impressiona a diferença do número de depoimentos colhidos de homens e mulheres.

Mesmo com seus deslizes, é inegável a relevância do documentário. Do ponto de vista histórico, Tá Rindo de Quê? é mais uma peça importante para reconstruir a memória do que foi a ditadura no país, ainda mais agora quando se tornou tão conveniente falsear e negar fatos desta época. Porém, também destaca o papel do humor na sociedade, tanto como entretenimento, quanto como crítica. Gostos pessoais à parte, a figura do comediante se prova cada vez mais essencial para entendermos quem somos e fomos enquanto nação.

Nota do Crítico
Bom