Supergirl confirma Milly Alcock como peça valiosa no DCU e não vai muito além
Roteiro de Ana Nogueira pinta jornada redondinha, mas a direção burocrática de Craig Gillespie limita o potencial do filme
Créditos da imagem: DC Studios
Adaptando Supergirl: Mulher do Amanhã, a maravilhosa HQ de Tom King, Bilquis Evely e Mat Lopes, Supergirl é um exemplo curioso de como algo tão encaixado pode ser menos interessante do que um risco. Há um ano, na minha crítica de Superman, mencionei a bagunça do segundo ato como o grande defeito de um filme outrora bem-sucedido. Aqui, não há nada deste tipo. O roteiro de Ana Nogueira, muito elogiado por James Gunn, é de fato um documento redondo – dispensando as típicas ideias malucas de filmes de herói sobre viagens no tempo, armas espaciais e lasers no céu em favor de puro desenvolvimento de personagem – mas, especialmente na mão pouco inventiva do diretor Craig Gillespie, essa também é uma história que joga seguro demais.
Milly Alcock como Supergirl
Como na premiadíssima história que serve de esqueleto para este longa, acompanhamos uma jovem Kara Zor-El (Milly Alcock) fugindo para um sistema com sol vermelho para baixar sua imunidade e, portanto, permitir a embriaguês, numa tentativa de celebrar seu aniversário de 23 anos esquecendo todo o sofrimento que viveu, incluindo anos flutuando no pedaço preservado de Krypton que, graças a tecnologia de seu pai (como Zor-El, David Krumholtz mostra que consegue emocionar mesmo num idioma inventado), salvou parte da população do planeta de sua explosão, mas não da radiação do cosmos. Também como no material base, a heroína cruza o caminho de Ruthye (Eve Ridley), uma garota que busca vingança contra Krem das Colinas Amarelas (Matthias Schoenaerts) por matar sua família, e a acompanha na jornada depois que o vilão coloca Krypto em risco de morte.
A principal diferença entre o que está na página e o que estará nas telas a partir do final de junho é a abordagem visual de Gillespie, um cineasta que Hollywood vem contratando há alguns anos por oferecer, supostamente, uma assinatura autoral sem sacrificar seu lado operário. Está claro que o diretor de Cruella e Dinheiro Fácil consegue entregar um produto dentro da deadline – mas, diferente de seus melhores trabalhos, como o ótimo A Garota Ideal, estes filmes (e agora Supergirl) sugerem um artista cada vez mais burocrático. Neste longa, isso significa um visual amarronzado e por vezes genérico, assim como um vilão pouquíssimo interessante, que por alguma razão teve sua aparência original marcante transformada num inimigo genérico vindo de uma gangue de Mad Max, ao ponto de asfixiar a atuação de Schoenaerts.
Lobo de Jason Momoa em Supergirl
São elementos que não impedem Supergirl de ter méritos, mas limitam seu potencial criativo. A narrativa de Nogueira, muito bem ancorada por Alcock e Ridley, merecia algo mais dinâmico, especialmente porque esse é o raro filme de super-herói que encara suas mulheres com todo o cuidado e honestidade possível. Não há nenhuma tentativa de aperfeiçoar Kara para que ela seja uma garota cativante. Sua bagunça é o charme, e Alcock se encaixa feito uma luva na protagonista. A atriz de A Casa do Dragão é perfeita como Supergirl – sua aparente indiferença é temperada por uma missão interna de buscar o correto e justo – e Alcock consegue exibir esse puxa-e-empurra emocional de forma simultânea em sua face e jeito. É um dilema interior que reflete muito bem os temas do texto do quadrinho, e também da adaptação, ao ponto de poder ser descrita como sua melhor representação visual no longa.
A jovem Ridley não é tão eficaz, mas brilha especialmente quando o filme a coloca lado-a-lado com o Lobo de Jason Momoa. Ausente da minissérie de King e Evely, o mercenário é a principal mudança do longa, mas vai suficientemente além de uma tentativa de agradar os fãs. O conflito central de Supergirl é entre justiça e vingança, e quando matar um inimigo é justificado versus quando isso pode corromper a alma. Por mais que essas ideias não sejam lá tão bem trabalhadas, o Maioral de Momoa – obviamente perfeito para o anti herói – representa bem um destino potencial para Ruthye. Nada preocupado com moralidade, ele se deleita no caos e o filme descobre uma química inesperada quando coloca a menina, meio arrogante e totalmente independente, diante dele.
Essa temática é complicada, no melhor sentido, pela conclusão do filme. Não vamos entrar em detalhes, mas há uma decisão tomada por Kara que representa o lance mais ousado de Supergirl, e um que infelizmente não é precedido por debates mais afiados sobre qual é a resposta correta a alguém como Krem. Este momento vem depois da única sequência de ação que eu descreveria como memorável em todo o filme, e se por um lado isso significa que há problemas na estrada que nos leva até o encerramento do longa, seu final inclui alguns dos destaques de toda a obra.
Repleto de criaturas divertidas e disposto a colocar em tela o lado mais sujo do universo DC, Supergirl se beneficiaria de mais coisas assim. Diferente de Superman, este não é um filme de grandes altos e alguns baixos, mas sim algo que, apesar de não ter muitas rachaduras, raramente encanta. Supergirl, sim, confirma Alcock como alguém capaz de dominar a telona e sem dúvidas uma peça valiosa para o futuro do DCU de Gunn, mas não faz muito mais.
Supergirl estreia em 25 de junho nos cinemas com sessões antecipadas a partir do dia 23.
Supergirl (2026)
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