Street Fighter desperdiça boas ideias com filme bagunçado e sem uma luta memorável
Noah Centineo e Andrew Koji vivem Ryu e Ken em um misto de galhofa e drama
Uma maldição paira sobre as adaptações de Street Fighter para o cinema. Desde o longa de 1994, estrelado por Jean-Claude Van Damme como Guile, as coisas não vão bem para as versões em carne e osso do game de luta da Capcom. Essa primeira tentativa de levar os personagens para as telonas sofreu com o excesso de figuras na trama, o foco no astro belga em detrimento de outros, os palpites do estúdio, mas pelo menos tinha uma carta na manga: Raul Julia como M. Bison. Já a versão focada em Chun-Li, lançada em 2009, é um desastre completo. Infelizmente, chegamos a 2026 sem notícias muito animadoras para os fãs dos videogames.
O novo Street Fighter chegou a ser um projeto com o nome dos jovens diretores Michael e Danny Philippou (Fale Comigo), mas a dupla acabou deixando a produção para tocar o ótimo Faça Ela Voltar. O longa então ficou nas mãos de Kitao Sakurai, que dirigiu episódios da segunda temporada de Treta e de Twisted Metal, mas não tinha no currículo nada grande o suficiente para justificar seu nome à frente de um projeto de luta e ação deste porte.
No centro das atenções está a dupla Ken (Noah Centineo) e Ryu (Andrew Koji), dois ex-companheiros de treino com origens bem diferentes — um é um filhinho de papai enviado ao Japão, e o outro, um órfão. Eles se separam após uma tragédia atingir o dojo e o mestre de ambos. O evento marca a amizade dos dois, com Ken não aceitando a morte do mestre e Ryu tendo que lidar com a força sobrenatural de Akuma (Roman Reings) querendo emergir. Anos depois, os dois se reencontram no meio de uma trama orquestrada por M. Bison (David Dastmalchian), que reúne grandes lutadores do mundo todo para um torneio.
Street Fighter sofre do mesmo mal do Mortal Kombat de 2021: personagens demais em cena, que acabam perdidos em meio a uma trama desnecessariamente rocambolesca. O filme não decide se quer ser uma comédia galhofa com Ken, Guile (Cody Rhodes), Zangief (Olivier Richters) e o insuportável Don Sauvage (Eric André) ou um drama com Ryu e Chun-Li (Callina Liang). Koji sofre ao tentar dar peso à jornada de trauma de Ryu enquanto lida com o Ken de Centineo fazendo piadas, escorregando na meia ao chutar ou caindo bêbado ao lado de Dan Hibiki (Andrew Schulz) — que tem uma participação surpreendentemente grande na história. Falta carisma a Koji, preso a uma cara sisuda e a um olhar triste, enquanto sobra a Centineo um tom que faz seu Ken parecer um golden retriever humano na maior parte do tempo.
Entre os coadjuvantes de luxo, 50 Cent mal aparece como Balrog em duas cenas que não somam três minutos. O mesmo vale para Zangief. Vega (Oliver Peck) e Cammy (Mel Jarnson) funcionam como meros cães de guarda de M. Bison, sem relevância além de um ou outro momento de ação — e, no caso dela, de fazer caras e bocas para a câmera. O mesmo se aplica ao Blanka de Jason Momoa que, prejudicado por um CGI duvidoso no rosto do personagem, protagoniza uma cena canastrona com Ryu após a luta já exibida no material promocional.
O grande ponto positivo é Callina Liang, que se consolida como um dos maiores destaques da produção. É notável que o diretor gosta de Chun-Li e mesmo com uma trama rasa, ela é uma das poucas figuras que ganham algum desenvolvimento e objetivos claros. O mesmo não se pode dizer de David Dastmalchian como o vilão M. Bison. Por mais que fique bem no uniforme — e vale destacar que os figurinos são muito caprichados na reprodução dos games —, não dá para levar a sério o ator revirando os olhos como um vilão de Austin Powers. Já Cody Rhodes entrega um ótimo Guile, equilibrando a cafonice do jogo com a comédia, mas o personagem também sofre com o roteiro picotado, que o deixa de lado sem nenhuma cena de luta além do que já estava no trailer. O mesmo vale para o Dhalsim de Vidyut Jammwal, uma transposição perfeita do jogo para o cinema. Um spin-off da dupla seria ótimo, diga-se de passagem.
Aliás, as lutas em Street Fighter são uma imensa decepção e isso é um grande problema quando é o único elemento que esse tipo de adaptação não pode errar. Além do que já foi mostrado nos trailers e de pequenos momentos — como o confronto entre Chun-Li e Bison e a luta de Ryu contra Akuma —, tudo é sem inspiração. Os combates são picotados, quando não resolvidos fora de tela, deixando o espectador apenas com o resultado. Kitao Sakurai não se dá ao trabalho nem de criar uma montagem musical com várias lutas simultâneas, um clichê clássico que até produções para a TV como Cobra Kai conseguem executar com empolgação. O desleixo na edição é tão grande que o golpe central na história de Ken nem aparece direito, vítima de uma montagem bizarra na hora da luta final.
Ambientado em 1993, o filme tenta ao longo de toda a projeção emular a estética dos videoclipes que faziam sucesso na MTV da época. Com cenas de luta embaladas por Offspring e visual de TV de tubo em alguns momentos, a produção tem boas ideias para construir essa ambientação, que jamais deveria se levar a sério, como passa a fazer do meio para o final. Os flashbacks em animação trazem um frescor bem-vindo e evitam efeitos de rejuvenescimento em um elenco que nem é velho. Os fãs da animação clássica ficarão felizes com os momentos em 2D, que acabam sendo os únicos a permanecer na memória após os créditos.
A maldição da franquia da Capcom tinha tudo para acabar aqui. O material promocional era ótimo, o tom de galhofa parecia no ponto, o visual estava fiel e o elenco trazia bons nomes para Street Fighter. Mas não foi desta vez. Quem sabe na próxima ficha.
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