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Crítica

Straight Outta Compton - A História do N.W.A. | Crítica

Contestação e música ficam em segundo plano, em biografia chapa-branca pautada pelo sucesso

Marcelo Hessel
10.10.2015
11h38
Atualizada em
29.06.2018
02h45
Atualizada em 29.06.2018 às 02h45

Não é a contestação, nem a música, que dão o tom de Straight Outta Compton - A História do N.W.A. (2015), e sim o sucesso. O filme do diretor F. Gary Gray sobre o grupo que ajudou a fundar o gangsta rap e revelou à cultura negra americana os nomes de Ice Cube e Dr. Dre se organiza em função da ascensão dos dois artistas, em oposição à ruína moral e física do co-fundador Eazy-E.

Essa disposição chapa-branca de incorporar ao filme o lado mais glamuroso do gangsta rap - "fique rico ou morra tentando" - permeia toda a trama, uma biografia protocolar que começa com a formação do N.W.A. em 1986 e termina, não por acaso, com uma menção nos créditos finais ao negócio bilionário que Dre fechou com a Apple pelos fones de ouvido Beats. No meio do caminho, Gray cita por obrigação os primeiros sucesso de Cube no cinema e enfeita a jornada como pode: mesmo na cena do enterro do irmão de Dre o grupo sai de cena triunfante, enfileirado à la Cães de Aluguel.

Talvez essa glamourização fosse incontornável, uma vez que é justamente o sucesso comercial a principal forma que o hip hop tem hoje de se legimitar como epicentro da cultura pop dos EUA. Em Straight Outta Compton, porém, essa postura só serve para sufocar assuntos incômodos (Dre é o mais bem sucedido então o filme não toca nos seus episódios de abuso contra mulher) e minimizar a violência, retratada como piada (o namorado de Felicia que bate no quarto do hotel e é recebido com um arsenal) ou excentricidade (o ataque de Ice Cube à gravadora). Consequentemente, o filme não menciona a guerra sangrenta entre o rap das costas Leste e Oeste no resumo dos créditos finais.

Restam as saídas descomplicadas e esperadas: achar um par de vilões (Suge Knight, o empresário judeu, figuras cuja função no filme é servir de obstáculo ao gênio do trio principal), aderir ao discurso de justiça social que está na origem do gangsta rap e é o coração do N.W.A. (nos conflitos contra a polícia e nas cenas de gueto, pontos altos do filme, reforçado pelas imagens forte de arquivo da morte de Rodney King) e tornar Eazy-E menos um mártir do que um mau exemplo (a grande lição de moral de Straight Outta Compton, um filme inequivocamente americano, não seria outra senão condenar a promiscuidade).

Como muitas outras biografias musicais, Straight Outta Compton confia que sua narrativa possa ser conduzida pela performance, e não pela problematização ou pela revisão histórica. Mas o acesso aos clássicos do N.W.A. e o fato de o elenco principal ser incrivelmente parecido com Cube, Dre e Eazy-E, infelizmente, não bastam.

Nota do Crítico
Regular