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Crítica

Star Wars - Os Últimos Jedi | Crítica

Saga foge do trivial em filme ousado, e expande as possibilidades para o futuro

Thiago Romariz
12.12.2017
18h29
Atualizada em
29.06.2018
02h46
Atualizada em 29.06.2018 às 02h46

O segundo filme de uma trilogia é conhecido sempre como o mais obscuro e transformador. Os personagens apresentados no início se descobrem, o inimigo se fortalece e os primeiros passos para o encerramento são pavimentados. Star Wars: Os Últimos Jedi segue essa cartilha, mas o faz de maneira nunca vista na série. Heróis e vilões se confundem em uma história cheia de altos e baixos, mas que nunca perde de vista a missão principal: mostrar a jornada de seus protagonistas, Rey e Kylo Ren. Ao invés de seguir a premissa tradicional do bem e mal traçados como opostos, o longa mistura os conceitos não só na dupla principal, mas em boa parte do elenco - novos e antigos personagens. Essa combinação se amplia na narrativa e no ritmo do filme, o menos convencional de toda a franquia.

Rian Johnson, diretor e roteirista, não se apega a nada estabelecido pelo estilo de O Despertar da Força. A velocidade com que muda de núcleo, apresenta novos rostos e resgata as histórias da trilogia original em nada se assemelham ao trabalho de J.J. Abrams. E ao mesmo tempo que distorce expectativas, o cineasta tem a sensibilidade necessária para lidar com os personagens antigos sem torná-los fan services gratuitos. Ainda que se estenda em alguns momentos, Os Últimos Jedi respeita o lugar e a importância da série na mesma medida que entende a necessidade de evoluí-la. É a devoção sem receio, uma ousadia consciente. Uma combinação que mantém a série no papel de vanguarda estabelecido quando a saga Skywalker se iniciou em 1977 com George Lucas.

Assim como os outros capítulos da série, o humor atrapalhado dos robôs e a caricatura do totalitarismo estão bem presentes. Mesmo com o tom rubro-negro da fotografia e a pegada soturna da trilha sonora de John Williams, ainda existe o sentimento de aventura espalhado pelo filme. O que fortalece essa impressão são as criaturas espalhadas pela galáxia, a falta de vergonha em fazer piadas no meio da tensão é a realização de que Star Wars possui uma identidade marcada também pela comédia. Ao mesmo tempo, somente O Império Contra-Ataca tem reviravoltas e momentos dramáticos como Os Últimos Jedi. A forma como Jonhson apresenta essas mudanças é construída por uma câmera acelerada, diálogos rápidos e dois atores totalmente entregues aos personagens. A inocência de Rey se esvai aos poucos dos olhos de Daisy Ridley, enquanto a fúria de Kylo cresce gradativamente no rosto de Adam Driver.

O confronto militar da guerra no espaço é onde o elenco de apoio se destaca. O roteiro reúne quase todos os personagens em um só núcleo, mas os faz passar por missões diferentes para salvar a Resistência. Nesses momentos, a divisão da atenção prejudica a condução do segundo ato, que foca a ação em Finn, Poe e Rose. Há tempo de tela suficiente para todos os personagens se apresentarem, mostrarem suas motivações, mas pouco se fala sobre a situação da galáxia - é como se existisse somente uma dúzia de pessoas preocupadas ou prejudicadas com os feitos da Primeira Ordem. Assim como O Despertar da Força, Os Últimos Jedi se importa muito mais com seus personagens do que com o contexto no qual eles estão inseridos.

O texto de Johnson se preocupa em explicar de verdade apenas a ligação entre Rey, Luke e Kylo Ren. Esse trio é a essência do filme, que transforma Luke em um tipo de herói pouco convencional: relutante, sábio, excêntrico, imponente. As definições para o personages são inúmeras, todas semelhantes a outros jedi, mas no fim das contas o Mestre Skywalker é diferente de tudo mostrado na franquia. Leia segue a direção oposta, com um retrato mais comum, mas tão importante quanto. Ambos são o traço de sensibilidade de Os Últimos Jedi, que não trata a nostalgia como um enfeite de roteiro, mas uma adição à nova fase dos personagens antigos. As lembranças aqui são usadas como transformação e fazem parte da história de todos. É louvável a forma como o filme faz homenagens e entrega tudo o que o fã espera. Por vezes sutil, por vezes explosiva, mas sempre emocionante.

Com o caminho seguro pavimentado por O Despertar da Força, a expectativa geral era de uma continuação que firmasse as bases tradicionais da série. Rebelião contra Império, luz contra escuridão. As corajosas decisões de Rian Johnson, porém, renovam a série. A estrutura do filme não segue nenhum conceito estabelecido e prefere ludibriar o espectador, provocar questionamentos e deixar as definições para depois. As estrelas de Star Wars sempre foram os personagens e Os Últimos Jedi os transforma sem perder o encanto. É uma forma diferente de ver heróis e vilões. E apesar de ser o segundo filme da trilogia, o longa parece o início de uma nova e ótima fase para a franquia.

Nota do Crítico
Excelente!