Spencer usa linguagem dos filmes de guerra para agigantar tragédia de Diana

Créditos da imagem: Kristen Stewart em cena de Spencer (Reprodução)

Filmes

Crítica

Spencer usa linguagem dos filmes de guerra para agigantar tragédia de Diana

Kristen Stewart encarna Lady Di sufocada na extravagância dramática de Pablo Larraín

Caio Coletti
26.01.2022, às 15H01
ATUALIZADA EM 26.01.2022, ÀS 15H53
ATUALIZADA EM 26.01.2022, ÀS 15H53

As primeiras cenas de Spencer não deixam dúvida do tipo de filme que ele é. Um pelotão de veículos militares chega à Sandringham House, onde a família real britânica tradicionalmente passa o feriado de Natal. Os soldados que descem dos caminhões camuflados carregam caixas reforçadas, daquelas que normalmente vemos no front. Quando eles se dirigem de forma impecavelmente rígida até a cozinha, no entanto, e abrem as caixas em meio à penumbra, nós as descobrimos cheias de comida cara.

E assim, com uma sequência de poucos minutos, o diretor Pablo Larraín e o roteirista Steven Knight estabelecem a tese central do seu longa, o seu ponto de vista: para Spencer, a família real britânica é um pelotão militar condicionado a uma disciplina e uma burocracia absurdas, um bando de aristocratas transformados em soldados sem um conflito de verdade para lutar. E Diana (Kristen Stewart), bom… ela é uma prisioneira de guerra.

Durante as quase duas horas seguintes, o filme continua emprestando a linguagem visual e os chavões narrativos dos filmes de guerra. Larraín, por exemplo, faz os criados da mansão se moverem como um esquadrão em treinamento matinal, e os próprios membros da família tentarem imitá-los na forma como deferem aos movimentos da rainha Elizabeth II (uma excelente Stella Gonet, agigantando os poucos momentos que o roteiro lhe dá). Quando ela se levanta de súbito do sofá durante a transmissão do seu discurso pela TV, por exemplo, a família toda se enrijece, fazendo menção de segui-la, em posição de sentido quase cômica.

Enquanto isso, a diretora de fotografia Claire Mathon (Retrato de uma Jovem em Chamas) cria um filme de cores mudas, quase pastéis, reforçando a realidade monótona e controlada que nasce desse exagero cerimonial. Mas da câmera dela também nascem imagens inesquecíveis, como Diana caminhando pelo campo enevoado de Sandringham durante a noite, se aproximando da cerca que delimita a propriedade próxima, onde ela passou a infância. Quando aparece emoldurada pela sombra do cercado adornado com arame farpado, Lady Di poderia muito bem estar em uma cena de Platoon ou O Resgate do Soldado Ryan - se não fosse o casaco de grife, é claro.

Ao mesmo tempo, o roteiro de Knight coloca sua princesa em contato, e em contraste, com tipos que vemos sempre nesse gênero. O major Gregory de Timothy Spall é o treinador rígido, o comandante linha-dura que insiste em impor o seu senso de dever inflexível, quase mortal, àqueles a sua volta; o chef Darren do ótimo Sean Harris encarna a figura de autoridade mais gentil, confidente da nossa protagonista, compassivo mas incapaz de libertá-la de seu predicamento; e o príncipe Charles de Jack Farthing é a presença negociadora e conformista, que insiste que Diana seria capaz de se adaptar a essa prisão caso se esforçasse um pouquinho.

Eles são, como nos clássicos de guerra, homens definidos por seus títulos, suas posições hierárquicas, tanto ou mais do que pelo que sentem ou são. Na posição fragilizada de prisioneira, enquanto isso, a Diana de Spencer encarna tudo o que o público amava na Diana da vida real: sua abertura emocional, sua evidente vulnerabilidade diante da máquina burocrática da família real, e a forma como essas mesmas características às vezes explodiam em desafios abertos à convenção, porque ela se via sem nada a perder.

Com um ponto de vista tão forte, Spencer é um filme difícil de navegar para a sua protagonista. A escolha de Kristen Stewart para interpretar essa Diana específica conjurada pelo roteiro foi certeira porque, como atriz, a americana é capaz de expressar como poucas a angústia sufocada, o grito extinto antes de escapar pela boca, que a define. Por outro lado, Spencer entende que toda cinebiografia é um truque de marketing - não pagamos para ver Jackie Kennedy, para citar um exemplo dirigido pelo mesmo Larraín, mas sim para ver Natalie Portman interpretando Jackie Kennedy -, e encontra em Stewart a autoconsciência quase satírica necessária para fazer esse truque funcionar sem comprometer o impacto emocional do longa.

Então, sim, o sotaque da Diana interpretada pela ex-estrela de Crepúsculo é uma extrapolação atroz da forma como a Diana real falava. E Stewart coloca cada um dos trejeitos conhecidos da princesa (seu hábito de sussurrar e olhar os interlocutores de baixo para cima, seus movimentos graciosos de bailarina) sob uma lupa, desenhando assim uma versão dela em cores primárias, mas angustiantemente reconhecível. Perfeito para um filme que transforma a banalidade trágica da vida e morte de Diana em pura extravagância dramática, dando à princesa uma estatura teatral que em muito excede a realidade. 

Spencer abre com um letreiro em que promete ser uma fábula de uma tragédia real”. Quando chegamos ao fim, a impressão é que poucas vezes uma obra cumpriu tão integralmente uma promessa.

Spencer (2021)
Spencer
Spencer (2021)
Spencer

Direção: Pablo Larraín

Roteiro: Steven Knight

Elenco: Kristen Stewart, Sean Harris, Sally Hawkins, Timothy Spall

Nota do Crítico
Ótimo

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