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Sou Feia mas tô na Moda | Crítica

Sou feia mas tô na moda

Eduardo Viveiros
15.12.2005, às 00H00
ATUALIZADA EM 02.11.2016, ÀS 18H00
ATUALIZADA EM 02.11.2016, ÀS 18H00

Sou feia mas tô na moda
Brasil, 2005
Documentário - 61 min

Direção e roteiro: Denise Garcia

Elenco:
Deise da Injeção, Gaiola das Popozudas, Tati Quebra-Barraco, Cidinho e Doca, DJ Marlboro

Não é de hoje que o funk carioca rende polêmicas. Das coreografias apadrinhadas pelo palco da Xuxa à ligação com o tráfico de drogas, das letras desbocadas à Egüinha Pocotó, a sempre acalorada discussão teima em girar em torno da qualidade sonora, acentuando o preconceito e a eterna patrulha do bom gosto. Caetano Veloso diz que é lindo, algum religioso de plantão condena o conteúdo pecaminoso e o movimento, em ondas, desce das favelas do Rio para as festas das classes altas do asfalto.

O que fica abafado no bate-boca, fora a meia dúzia das vozes de sempre, é a importância social do movimento e a autenticidade do que é produzido nos estúdios toscos de fundo de quintal. O funk, hoje em dia, é uma das expressões mais enraizadas na cultura brasileira, relendo há anos a música eletrônica que vem de fora e transformando tudo em uma manifestação que retrata a cabeça do Brasil fora de esquadro.

E, enquanto a discussão e a autocensura vão forte aqui dentro, essa lavra é exportada para América do Norte e Europa, vira febre por lá, cai nas graças de produtores importados e, naquele nosso eterno espelhamento contra o hemisfério de lá, ganha respeito no próprio berço. A elite tupiniquim despreza o som do vizinho enquanto glamouriza o eco que vem da BBC. É a via torta de sempre.

Bom exemplo disso é a carreira que o documentário Sou feia mas tô na moda, primeiro longa da diretora Denise Garcia, cumpriu antes de chegar à sua terra natal. Estreou em Londres no começo do ano, passeou pela Europa e foi comprado até pela rede Al Jazeera, do Oriente Médio, para só agora entrar em circuito comercial no Brasil.

O documentário foi bem recebido por lá, mas aqui a história foi diferente, até agora. A produção de Denise (que é sócia da produtora Toscographics, ao lado do cartunista Allan Sieber) foi totalmente independente, segundo ela, sem tirar um tostão dos programas de incentivo do governo. Não por falta de tentativa, mas por falta de empresas dispostas a ligar sua marca à favela. A luz só veio quando o filme foi parar nas mãos da francesa Imovision (olha a Europa de novo), que garantiu uma boa distribuição nos cinemas.

Sou feia mas tô na moda, filmado durante 2004, dá certo por dar voz aos funkeiros e voltar àquele ponto do papel social desse universo paralelo. Denise faz uma rápida incursão na história do funk carioca (dos bailes soul ao miami bass ruminado), mas foca principalmente no momento atual do movimento.

As personagens principais são as mulheres do funk - das expoentes estreladas Tati Quebra-Barraco, Deise da Injeção e Vanessinha Pikachu às undergrounds, como Juliana e as Fogosas ou Bonde das Popozudas. Elas conduzem a história e mostram como, no papel de terapeutas involuntárias, acabam dando aplicações de cidadania e auto-estima no mulherio das favelas.

Sobre os palcos, inverteram e evoluíram o papel de objeto-bundinha: ainda dançam, rebolam e usam calças jeans provocativas, mas agora têm o microfone nas mãos e gritam, com vontade, o seu papel sexual. Ou seja, o objeto ganhou voz, longe do sorriso plastificado de outros traseiros icônicos, como Carla Perez.

O sexo nas letras das funkeiras não tem papas nos lábios. O conteúdo indecente e agressivo reflete o pensamento da geração atual, sem carolices. O que os inquisidores classificam de pornografia, elas batizam de sensualidade. O erro está no olho viciado de quem vê fora de contexto.

Mas a terapia sexual de choque não é o único efeito positivo analisado pelo documentário. Denise também dá voz aos homens - velhas figuras no front funkeiro, como DJ Marlboro, Mr. Catra e a dupla Cidinho e Doca (donos do Rap da felicidade e responsáveis pelo momento mais belo do documentário) - e mostra como o funk ajudou a dar sangue novo a uma realidade afogada entre o preconceito do lado de fora e o crime do lado de dentro.

O mundo dos funkeiros é autofágico, se mantendo à parte de qualquer indústria. Eles produzem suas próprias músicas, têm seus estúdios e esquemas de distribuição, seu circuito de bailes e público fiel. É toda uma cadeia de empregos montada por eles e para eles, sem interferência externa. Como o próprio Marlboro diz, o gueto cansou de tentar se comunicar com o asfalto e percebeu que é melhor falar para o seu próprio povo. Se quem vem de fora quiser prestar atenção e tentar entender, ótimo - se não, não faz a menor diferença.

Sou feia mas tô na moda, do alto do seu posto de documentário pioneiro sobre o assunto, carrega o papel de introduzir e traduzir o movimento para o brasileiro não-iniciado. Sem preconceitos, condescendências ou pré-julgamentos. Já está mais do que na hora de o funk carioca sair do jardim zoológico e começar a ser levado a sério.

Sou Feia Mas tô na Moda
Sou Feia Mas tô na Moda
Sou Feia Mas tô na Moda
Sou Feia Mas tô na Moda

Ano: 2005

País: Brasil

Classificação: LIVRE

Duração: 61 min

Direção: Denise Garcia

Elenco: Mr. Catra, M.C. Cidinho, M.C. Doca, Kate Lyra, D.J. Marlboro, Vanessinha Picaxu

Nota do Crítico
Bom

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