Sonic - O Filme

Créditos da imagem: Divulgação/Paramount Pictures

Filmes

Crítica

Sonic - O Filme

Humor e Jim Carrey acrescentam ruídos bem-vindos em pacote pensado para ser inofensivo

Marcelo Hessel
13.02.2020
15h25
Atualizada em
13.02.2020
15h35
Atualizada em 13.02.2020 às 15h35

Parece evidente que o tão falado redesenho de Sonic no seu filme era uma questão de urgência, mas por trás da necessidade da mudança existe outra questão, inflamada depois de Star Wars - A Ascensão Skywalker: até que ponto as reivindicações dos fãs tiram dos autores sua autonomia criativa, e como isso pode tornar filmes (e séries, e games...) uma massa sem gosto feita para não desagradar ninguém.

Sonic - O Filme é um bom exemplo de como se distribuem hoje em dia os fan services em produções que, desde a concepção, são pensadas para todos os públicos, incluindo aí as pessoas que não têm ligação afetiva com os videogames dos anos 1990. A jornada do ouriço de CGI em seu primeiro longa-metragem em live-action passa por temas e elementos absolutamente genéricos de pertencimento e amizade que pontuam um sem número de produtos de Hollywood voltados para o americano médio, do elogio da cidade pequena aos alívios cômicos com estereótipos locais.

Para quem espera uma adaptação fiel, Sonic - O Filme pode desapontar um pouco, porque a linha de raciocínio aqui é a mesma do filme dos Smurfs, com uma ambientação que migra de cenários de fantasia para ambientes urbanos em nome da relação nostálgica que o público local tem com o americanismo. No filme, essencialmente um road movie, Sonic quer aproveitar tudo o que a vida pode oferecer antes de usar um anel-portal e se mudar para outro mundo; isso significa brigar com motoqueiros, aprender passinhos de country, a lista completa.

Isso gera situações que o filme ironiza, como a passagem pela cidade que tem a maior bola de elásticos do mundo, mas mesmo a piada é pensada para ser nostálgica também. Aos fã cabem as referências que não "interferem" na narrativa, como a variedade de easter eggs na toca do Sonic, e principalmente o preâmbulo que introduz muito brevemente sua terra natal. Chamar isso de mitologia seria exagero: o que o filme faz é usar elementos mitológicos dos games (os mundos, a possível referência a Knuckles) como paisagem sem de fato inserir a história nesse universo. O mesmo acontece com as duas cenas pós-créditos. Ao fã, em outras palavras, é dado uma luz no começo e uma luz no final.

Assim, de modo geral, Sonic - O Filme parece muito mais um produto uniformizado para agradar todo mundo (pelo menos todo mundo que vai ver o filme nos EUA) e não especificamente o fã - e no fim o redesenho do protagonista funciona, Sonic parece vivo e cartunesco na medida. O que acaba dando ao longa uma personalidade inesperada não tem a ver com os jogos: a atuação de Jim Carrey como Robotnik e também o humor que envolve os outros personagens que não são o Sonic...

A dupla de roteiristas Pat Casey e Josh Miller - ambos de 41 anos e de carreira discreta, voltada para animações - injeta nas dinâmicas de personagem algumas tensões interessantes que estão no limite da correção política (o casal e a cunhada, Robotnik e seu ajudante libanês) e também brinca com a falta de aprofundamento desses personagens. Robotnik, por exemplo, faz graça o tempo inteiro com o bully que teria sofrido no passado, e o filme tem consciência de que essa sugestão de backstory só serve ao humor e nunca à mitologia. É em momentos assim que Sonic - O Filme encontra alguma personalidade, justamente por assumir que seu forte é a comédia e que o descaso com a mitologia também pode servir a essa comédia.

E obviamente há a figura de Jim Carrey, divisivo como sempre, e a direção de Jeff Fowler demonstra acima de tudo um grande respeito pelos tempos do ator. Carrey tem espaço e toda oportunidade de close-up que precisar para criar um vilão cheio de excentricidades. A tendência de Carrey para o riso de constrangimento, lapidada em anos de trabalhos com os irmãos Farrelly, ajuda demais Sonic - O Filme a gerar algumas faíscas de interesse e ruído, em meio a muita coisa projetada para ser acima de tudo inofensivo.

Nota do Crítico
Bom