Como seus biografados, Song Sung Blue não é nada especial - e está tudo bem
Com Kate Hudson fenomenal, filme é crônica de uma vidinha elevada pela música
Créditos da imagem: Cena de Song Sung Blue: Um Sonho a Dois (Reprodução)
Sempre que se aproxima do tom triunfalista que domina os segundos e terceiros atos de outras cinebiografias musicais, Song Sung Blue: Um Sonho a Dois dá um passo para trás. O diretor e roteirista Craig Brewer, como bem demonstrou no seu filme mais conhecido até hoje (o premiado Ritmo de um Sonho, de 2005), não está interessado em histórias triunfantes – ele quer entender o que acontece quando o triunfo não vem.
Por isso é compreensível que Brewer tenha se fascinado pela história verdadeira de Mike (Hugh Jackman) e Claire Sardina (Kate Hudson), conhecidos nos palcos como Lightning & Thunder. Após dar muito sangue, suor e lágrimas para o cenário musical amador de Wisconsin (EUA), eles se conectaram no final dos anos 1980 para formar um duo que ganharia fama moderada na região por seu show-tributo a Neil Diamond.
“Moderada” é a palavra-chave na frase acima, no entanto. Song Sung Blue registra momentos em que Lightning & Thunder ascenderam a um patamar inesperado – em 1995, por exemplo, eles dividiram o palco com Eddie Vedder, do Pearl Jam, em um encontro tão improvável quanto verdadeiro –, mas sempre os pontua com a lembrança de que essa não é mais uma história sobre um super astro pop. Essa pontuação é frequentemente trágica, é verdade, mas serve também como forma de construir a sua filosofia narrativa.
Isso porque, veja bem, o que Brewer quer é retratar a vidinha ordinária de um casal (de uma família, na verdade) que amava os holofotes, é claro, mas acima de tudo amava a música. Esse amor os salvou algumas vezes, os ajudou a encontrar a saída para algumas situações desafortunadas que parecem só acontecer com quem já não tem muita sorte na loteria da vida, mas também os ajudou a viver uma vidinha ordinária que, pelo menos, valeu a pena em algum sentido – e Song Sung Blue direciona toda a sua energia criativa para nos mostrar como.
A câmera de Brewer, bem assistida por colaboradores habituais na fotografia (Amy Vincent) e montagem (Billy Fox), demonstra pendor forte para o melodrama do palco. Quando Lightning & Thunder se apresentam, Song Sung Blue se concentra nos olhares entre eles, no teatro de sobrevivência e vitória do seu relacionamento e dos seus sonhos particulares, que vão à cabo ali sob os holofotes, em praça pública.
Claro que, se há perigo do público esquecer que Hugh Jackman é cria dos musicais de palco (com dois Tony’s na prateleira para provar), Song Sung Blue o coloca de volta na posição de showman ultra-carismático. Fora dele, no entanto, o eterno Wolverine é eclipsado pela parceira de cena, que não à toa angariou a única indicação ao Oscar de Song Sung Blue: articulando vulnerabilidade e teimosia em Claire com a mesma intensidade que encontra nos olhares ressabiados, sorrisos hesitantes e agudos estratosféricos das performances ao vivo, Kate Hudson é mesmo o coração agridoce do filme.
Mas há também a alegria coletiva, a absolvição do público aos gritos que dá aos protagonistas uma aprovação, uma comunidade, que eles não são capazes de encontrar de nenhuma outra forma. E quantos de nós recorremos à música, à arte, para cumprir a mesma função? Acima de tudo, Song Sung Blue é desavergonhadamente populista, e entende como ninguém a cura e a apoteose de gritar “Sweet Caroline” (tãn-tãn-tãããããn!) a plenos pulmões, mesmo quando (ou especialmente quando) a vida não tem nos dado muito motivo para celebrar.
*Song Sung Blue: Um Sonho a Dois chega aos cinemas brasileiros na quinta-feira (29).