Solteira Quase Surtando

Créditos da imagem: Anagrama Filmes/Divulgação

Filmes

Crítica

Solteira Quase Surtando

Sem graça e mal atuada, comédia brasileira decepciona com premissa ultrapassada, direção ruim e subtramas excessivas

Nicolaos Garófalo
09.03.2020
19h01
Atualizada em
09.03.2020
19h13
Atualizada em 09.03.2020 às 19h13

Poucas coisas são tão decepcionantes quanto uma comédia sem graça. Existe algo triste em ir ao cinema com o objetivo de se desligar do estresse do mundo exterior com algumas risadas, mas, ao invés disso, acabar balançando a cabeça a cada cena decepcionante e mal atuada apresentada em tela. Infelizmente, Solteira Quase Surtando, novo filme de Caco Souza (400 Contra 1), causa justamente esse tipo de reação no espectador que, mesmo se for preparado para uma comédia boba, sai completamente desgostoso da sala de cinema.

O filme narra a história de Bia, interpretada por Mina Nercessian, que também assina o roteiro, uma publicitária genial “casada com o trabalho” e solteira convicta que, aparentemente, nunca pensou em constituir família. Desligada dos pudores impostos pelo patriarcado, a mulher explora com orgulho suas opções sexuais, sempre com o apoio do amigo Ravi (Leandro Lima), um homem gay que tem medo de se assumir para a família. Após mais de um mês de atraso de sua menstruação, Bia vai a uma ginecologista, que avisa que o estresse da vida moderna levou a publicitária a entrar na pré-menopausa aos 35 anos e que ela só teria mais seis meses férteis.

Deste ponto em diante, apresentam-se os primeiros problemas de roteiro: após saber que não poderia ter mais filhos, Bia desmorona em lágrimas, dizendo que sempre quis ter filhos, momento que se opõe a tudo o que havia sido mostrado até então, incluindo sua relação com sua irmã, Gabi (Letícia Birkheuer), e seus sobrinhos. Mudando completamente de opinião e personalidade, a moça praticamente abandona o trabalho – que só é mostrado em mais uma oportunidade no longa – e passa a buscar por um homem que satisfaça seu desejo repentino de ter um filho.

Ao mesmo tempo, um sem número inconsequente de subtramas desnecessárias se desenvolvem: Ravi discute com o namorado de longa data (Lui Mendes) por não admitir para sua família tradicionalista que é gay; Gabi descobre que o marido a trai com pornografia; e a avó de Bia, vivida por Beth Zalcman, faz inúmeras rezas e promessas para que a neta encontre o par ideal. Todas essas cenas são mostradas de forma forçada e mal atuadas em trechos curtos e mal editados. Em determinado momento, o corte entre uma tomada e outra é perceptível e extremamente incômodo.

Além das tomadas apressadas, nenhuma dessas histórias paralelas demonstra o mínimo esforço para fugir do lugar-comum. Tanto Bia quanto Gabi abandonam completamente suas carreiras e identidades pela perspectiva de formarem uma família, como se esse fosse um desejo natural a todas as mulheres. Em poucos segundos, o filme parece afirmar que aquelas que não desejam ter filhos, estão erradas. Já Ravi, mesmo com seu arco de se assumir para a família, tem pouco desenvolvimento além do "amigo gay" já visto em inúmeras comédias genéricas protagonizadas por mulheres. Em nenhum momento esses personagens têm um desenvolvimento real e os cortes abruptos impedem que qualquer um deles proporcione qualquer momento memorável no filme.

Tão errôneo quanto a direção de Souza, o roteiro de Nercessian parece ter algumas páginas faltando. Vários arcos são resolvidos sem a menor explicação, todos, de alguma forma, chegando a um final feliz sem a menor personalidade. Qualquer momento de tristeza é relativizado por uma frase motivacional isolada e mesmo as cenas mais alegres parecem completamente vazias de qualquer tipo de emoção.

Mesmo quando usa clichês antigos de comédia romântica como muleta, Solteira Quase Surtando não consegue ao menos entreter. O romance aparentemente ideal que termina de forma abrupta ou o casamento ao final do filme são tão óbvios quanto esquecíveis e o trabalho sem vida dos atores só reforça o sentimento de tédio que domina os longos 80 minutos de filme.

Malfeito de sua concepção à sua execução, Solteira Quase Surtando talvez seja o grande desastre do cinema brasileiro de 2020. Completamente perdido em seus próprios erros, é mais provável que o filme cause sonoros bocejos do que discretas risadas em quem arriscar pagar o ingresso de sua sessão.

Nota do Crítico
Ruim