Solo

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Filmes

Crítica

Solo

Mesmo com uma direção artística refinada, drama espanhol da Netflix conta mais do mesmo e tem dificuldade em refrescar o gênero

Matheus Bianezzi
21.02.2019
21h22

Não são poucos os filmes que colocam o ser humano e a natureza em lados distintos, onde mesmo a extrema beleza de um ambiente esconde os perigos mais traiçoeiros. Solo apresenta essa tensão criada pelo belo mas letal de uma maneira convincente, porém, tem dificuldade em se destacar estando imerso em um gênero com títulos mais louváveis, como Náufrago e 127 Horas.

Na história, durante uma viagem às Ilhas Canárias, o complexado surfista Álvaro Vizcaíno (Alain Hernández) caminha rumo a uma praia deserta quando escorrega e cai de um desfiladeiro, fraturando a bacia. Sua mão também se torna inutilizável ao passo que um corte profundo atrapalha qualquer tentativa de movimento. Álvaro vê a maré subindo cada vez mais e o perigo de se afogar é iminente, afinal, qualquer deslocamento é acompanhando de um imenso sofrimento. Para ajudar, está sem comida alguma e com hemorragia interna.

Entre um grito de dor e outro, conhecemos a história do surfista por meio de flashbacks. Sua personalidade nada mais é do que a de um homem que lutou a vida toda para não criar laços, buscando uma utópica liberdade. Usando de argumentos embedados com um egoísmo arrogante, Álvaro flerta com a maturidade de um adolescente - embora tenha trinta e poucos anos. Até que, o homem que adorava estar sozinho, foi obrigado catastroficamente a estar isolado por 48 horas. Lutando não só contra as adversidades naturais, mas também com seu próprio peso na consciência de ter tido uma vida cheia de culpa, a escolha entre morrer e viver é apenas uma linha tênue na consciência do espanhol.

Carregar um filme nas costas não é fácil. Esse é o maior desafio do ator Alain Hernández, que está na tela quase que o longa todo. Afinal, como o título já diz, ele está “solo”. Em monólogos e delírios dramáticos, o ator patina um pouco e não cria com facilidade o carisma necessário, mas, em contraponto, sua alta fisicalidade e presença compensam na construção do personagem biográfico. Mesmo que o filme seja sobre sobrevivência pura, e a morte dite o compasso do enredo para se adequar a uma contagem regressiva, a jornada de aceitação emocional vivida pelo protagonista é o que realmente prende o espectador. Se não fosse por esse arco de redenção pessoal, o filme pouco se diferenciaria de um documentário sobre os perigos do surf e suas tragédias.

Outro ponto que eleva a qualidade da produção e a torna um deleite visual são os competentes diretores. Situadas em uma das ilhas do arquipélago de Canárias, é quase uma prerrogativa obrigatória as filmagens terem um apelo artístico. Tanto o diretor, Hugo Stuven, quanto o responsável pela fotografia, Ángel Iguácel, extraem o melhor que um lugar paradisíaco pode dar. O longa é cheio de tomadas embaixo d'água e que exploram a imensidão tanto do oceano quanto dos penhascos, deixando nítido que a existência do surfista é pequena em relação à natureza. Tal escolha em contraste a um personagem tão orgulhoso e que se vê como o centro das coisas é uma metáfora poderosa e ao mesmo tempo sútil.

Depois de terem sido lançados inúmeros filmes com temática parecida, Solo dificilmente ficará marcado na mente de alguém. Ele não é ruim, pelo contrário, mas à medida que os minutos avançam, a sensação de previsibilidade só aumenta. O ritmo é adequado; o visual deslumbrante; mas em uma categoria bastante saturada, isso não é suficiente para o tornar memorável. Ele se encaixa entre os bons - e só isso.

Nota do Crítico
Bom