Socorro! marca o retorno de Sam Raimi ao horror cômico em show de Rachel McAdams
Com Dylan O’Brien também no elenco, filme explora relações de trabalho em ambiente inóspito e perigoso
São quase 15 anos desde que Sam Raimi lançou Arraste-me Para o Inferno, seu último trabalho de terror para o cinema. O tempo e a passagem do diretor por filmes como Oz: Mágico e Poderoso e o ótimo Doutor Estranho no Multiverso da Loucura tornam ainda mais curioso que seja justamente a produção de 2009 a acompanhar o clássico A Morte do Demônio no material promocional de Socorro!, filme que marca o retorno dele ao gênero. É nessa dupla de referências que reside um dos grandes brilhos da trama estrelada por Rachel McAdams e Dylan O’Brien: o horror cômico característico de Raimi.
Socorro! conta a história de Linda Liddle (McAdams), uma jovem excluída pelos companheiros de trabalho e vítima de bullying de Bradley (O’Brien), seu novo chefe e filho do falecido criador da empresa. Ao receber uma oportunidade para viajar com ele e outros homens da equipe, os dois acabam parando em uma ilha deserta. A partir daí, a dinâmica entre o filhinho de papai e a jovem cheia de habilidades de sobrevivência se transforma não só em obsessão, mas em uma relação de poder tão bizarra quanto perigosa.
Sam Raimi usa toda a sua criatividade visual para estabelecer um forte senso de repugnância na primeira parte do filme, nos colocando ao lado de Linda diante do machismo nas relações de trabalho e do desprezo que um ambiente tóxico pode causar a quem foge dos padrões. O diretor abusa dos planos-detalhe não apenas para provocar essa repulsa, mas também para aproximar o espectador de personagens indesejados e das fragilidades da protagonista. O mesmo cuidado se aplica ao ambiente da ilha, cuja geografia, beleza, perigos e desafios são rapidamente compreendidos. É um trabalho preciso de ambientação, que ajuda a estabelecer a relação de gato e rato entre Linda e Bradley.
Rachel McAdams é a grande estrela nas mãos do diretor. Do exagero na ingenuidade à tristeza por não ser aceita e acabar maltratada em um lugar onde se esforça tanto no início, passando pela energia que Linda dedica a construir abrigos, fazer fogo, criar acessórios e conseguir alimento na ilha deserta, a atriz brilha em cada um desses momentos. Raimi leva a jornada da trabalhadora para um território que lembra Survivor, reality show de sucesso nos EUA que inspirou No Limite no Brasil.
A imagem romântica de McAdams, construída em produções como Questão de Tempo e Diário de uma Paixão, ajuda Raimi a explorar ainda mais sua relação com o patrão mesquinho vivido por um enérgico Dylan O’Brien. O diretor mantém o espectador sempre em dúvida se Linda vai ou não ceder aos encantos do chefe babaca e bonitão, algo comum nas relações mais tóxicas entre exploração e falsas compensações. A dinâmica de comédia romântica, com o famoso trope do “se odeiam, mas passam a se amar”, faz parte da jornada e do mistério que envolve os dois.
É aí que entra, mais uma vez, o talento de Sam Raimi para o gênero. O diretor nunca nos deixa esquecer o motivo de Linda estar naquela situação e escancara isso com gore e muita — muita mesmo — nojeira. Os sustos vêm acompanhados de risadas nervosas, e há pelo menos dois jumpscares brilhantes e uma sequência envolvendo um javali que está entre as melhores de filmografia do cineasta. O humor atravessa o filme, especialmente no terror, de forma irônica, debatendo relações de poder não só no ambiente de trabalho, mas em uma sociedade movida pelo patriarcado e pela misoginia.
Com pouco menos de duas horas de duração, Socorro! passa voando (sem trocadilhos). O timing cômico e as reviravoltas — nem todas surpreendentes, vale dizer — tornam o filme uma experiência fácil e das mais divertidas dos últimos anos. Raimi volta a trabalhar com nomes que marcaram sua trajetória, como o compositor Danny Elfman, um show à parte com uma trilha cheia de crescendos que remetem aos suspenses e aventuras das décadas de 1950 e 1960. É impossível não pensar nos dois como a dupla que ajudou a moldar o cinema blockbuster moderno com Homem-Aranha.
Com Socorro!, Sam Raimi cria uma montanha-russa cômica e violenta, enchendo os olhos — que continuam uma fixação do diretor — de seus fãs e proporcionando uma experiência coletiva divertidíssima na sala de cinema. Ao misturar No Limite com O Aprendiz, Raimi torna impossível não torcer pela jornada da trabalhadora Linda, que tenta dar o troco na vilania do mundo real com fogo, cocos, pedaços de madeira e conchas conquistados com suor e sobrevivência.