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Crítica

Sobrevivência tem largada promissora, mas perde o fôlego do meio para o fim

Novo filme de Ben Affleck é desajeitado com suas emoções e suas consequências

Omelete
3 min de leitura
09.10.2026, às 07H30.
Ben Affleck em Sobrevivência (Reprodução)

Créditos da imagem: Ben Affleck em Sobrevivência (Reprodução)

Há uma aptidão em Sobrevivência que falta a muitos filmes de streaming, e é evidente que o culpado disso é Ben Affleck. O astro estadunidense tem demonstrado, desde que estreou na direção com Medo da Verdade (2007), uma afinidade pelo thriller urbano – ele é fluente na linguagem cinzenta e recheada de tensão desses filmes, que tradicionalmente testam a moralidade ou expõem a imoralidade dos tipos que compõem o mosaico das cidades contemporâneas. Os longas de Affleck, enfim, são bons em falar de privilégio e marginalização, de elos quebrados e pontes construídas entre personagens em lados opostos da divisão que define os seus cenários.

Sobrevivência é particularmente envolvente quando trata de tudo isso. Aqui, o próprio Affleck interpreta Mark Kimball, candidato à prefeitura de Los Angeles (EUA) que tem o filho pequeno sequestrado durante a noite de Halloween, dias antes da eleição. Ao lado da esposa Abigail (Kerry Washington), do seu chefe de campanha (Steven Yeun) e de uma  conselheira misteriosa (Gillian Anderson), ele precisa arranjar um dinheiro que não tem para pagar o resgate do menino e ainda entender de que forma isso vai afetar sua campanha. No meio dessa situação está a babá do garoto, Cecilia (Adriana Paz), e o seu novo namorado, um imigrante mexicano ilegal chamado Ramon (Luis Gerardo Méndez).

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As reviravoltas que Sobrevivência arma a partir dessa premissa – incluindo uma genuinamente chocante, ainda no primeiro ato do filme – não vêm ao caso aqui, é claro. Basta dizer que o roteiro, assinado por Affleck ao lado de Billy Ray (Jogos Vorazes) e Connor O. McIntyre, consegue construir o mundo de Kimball com competência: as dúvidas e culpas que definem suas relações com a esposa e o filho, as forças que podem ajudá-lo ou atrapalhá-lo na eleição, e por aí vai. E não só esta é uma teia narrativa envolvente, como também levanta temáticas genuinamente interessantes.

Como candidato à prefeitura de LA, por exemplo, Mark sabe que precisa se desdobrar para agradar ao eleitorado latino. Daí o espanhol arranhado, a atitude paternalista com Cecilia, e a preocupação com a imagem que cada trato com minorias pode passar. Sobrevivência, como talvez até o nome indique, quer questionar quais mentiras contamos (de fato, quais devemos contar) em nome de um objetivo, mesmo se ele for nobre. O quanto valem – em dinheiro, mas também em vidas humanas – as nossas ambições, os nossos planos, os nossos desejos? E com quem os dividimos?

“Existe a verdade, e existe uma boa história”, avisa o personagem de Yeun em certo ponto do filme. É sempre melhor quando as duas coisas se alinham – mas, caso não aconteça, “uma boa história sempre toma precedência”. Em seus melhores momentos, Sobrevivência reflete sobre as histórias em que nossas decisões mais consequentes, como indivíduos e como sociedade, são fundadas. E também sobre quem está disposto a contá-las.

É um alicerce temático forte sobre o qual fundar um filme. Mas, lá pela marca de uma hora, Sobrevivência parece perder de vista os próprios trilhos. Acima de tudo, o texto parece hesitar diante das consequências das decisões tomadas pelos seus personagens, ou das emoções que elas levantam. Talvez haja algo do Affleck ator interferindo no Affleck diretor/roteirista aqui – ele sabe que grandes explosões emocionais não são o seu forte, como uma cena deste mesmo longa deixa bem claro, e por isso recorre às meias medidas onde se sente mais confortável.

Mas Sobrevivência precisava de comprometimento. Se a ideia era mostrar a feiúra inescrupulosa desses personagens, era necessário que eles fossem feios. Por outro lado, se a ideia era mostrar o triunfo de um pragmatismo que suplanta as preocupações morais diante dele, era preciso que o filme bancasse essa (polêmica) ideia. Havia um grande e provocativo filme a ser feito aqui, independente de qual caminho Affleck escolhesse. Só é um pouco difícil digerir o fato que Sobrevivência, ao invés disso, escolhe nenhum.

Nota do Crítico

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