Sobrenatural: Agora Entre Nós mescla horror e aventura sem deixar de olhar para a frente
Sexto capítulo mantém viva a chama da franquia
Chegar ao sexto filme de uma franquia de terror já é, por si só, uma proeza rara. A maioria das sagas do gênero não sobrevive além do terceiro capítulo sem cair na repetição ou perder o público pelo caminho. Mas o que Sobrenatural: Agora Entre Nós propõe vai além de simplesmente manter viva a fórmula que consagrou a saga em 2010: o novo capítulo assume um tom mais próximo da aventura do que do puro susto, ao construir a história em torno de uma nova família e duas protagonistas inéditas: Gemma (Amelia Eve) e Maya (Island Austin).
Os jump scares que sempre foram marca registrada da franquia continuam presentes, e o filme até adiciona ao repertório algumas sequências bem construídas de jogos de câmera e body horror — as cenas dentro do sofá e no consultório do dentista estão entre os melhores momentos do longa nesse quesito, com direito a um dos poucos trechos em que a produção realmente arrisca sujar as mãos e ir além do susto fácil. O problema é que, entre um choque pontual e outro, falta aquela tensão constante que sustentava o medo ao longo dos filmes anteriores.
A sensação é a de um roteiro mais preocupado em avançar a mitologia e o vínculo entre as personagens do que em manter o espectador com os nervos à flor da pele do início ao fim. Para uma franquia que se consolidou justamente pela atmosfera de terror quase ininterrupto, essa escolha tira parte da força do produto final. Não é motivo suficiente para condenar o filme, mas é o tipo de ausência que se sente, sobretudo num trecho central da narrativa em que o ritmo cai e a trama parece girar em círculos em explicações didáticas até demais antes de recuperar o fôlego para o ato final.
Quem sustenta o longa, apesar dessas oscilações, é Amelia Eve. A atriz carrega nos ombros a alma do filme, e sua Gemma vive uma jornada de decadência pela tentativa de fugir das próprias assombrações, retratada com esmero raro para uma protagonista recém-chegada à franquia. Há um cuidado evidente em fazer da personagem algo além de mais uma vítima acossada pelo sobrenatural: sua deterioração emocional é construída aos poucos, e é isso que dá liga ao filme mesmo quando os sustos perdem força. É em torno dela, e não mais da família Lambert, que a trama se organiza, e essa transição de protagonismo funciona melhor do que se poderia esperar, ainda que o peso histórico dos Lambert continue pairando sobre a nova história.
O filme também acerta ao dar centralidade ao amor familiar como fio condutor da narrativa. A disputa contra o mal ganha camadas ao se tornar uma luta geracional entre avó, filha e neta, o que aproxima Agora Entre Nós do espírito mais emocional que sempre esteve por trás dos sustos de Sobrenatural. Mesmo quando a saga apostava todas as fichas no jump scare, era o vínculo familiar que dava sentido ao terror. Aqui esse elemento ganha ainda mais espaço, como se o filme entendesse que sua maior força nunca esteve só no susto, mas em pra quem esses sustos importam.
Ao mesmo tempo, o roteiro tem o cuidado de situar esse novo capítulo dentro da linha do tempo estabelecida pela franquia: a história se passa algumas semanas depois dos eventos de A Porta Vermelha, e a existência da família Lambert é reconhecida, não ignorada - um gesto que evita o erro de tratar essa reinvenção como um recomeço do zero, e que ajuda o filme a conversar com quem acompanha a saga desde o início sem excluir quem chega agora.
Outro ponto positivo fica por conta da expansão de mitologia, um dos maiores trunfos do longa. Elise Rainier (Lin Shaye) ganha um novo poder, agora capaz de possuir corpos para se comunicar com os vivos, uma evolução que renova a personagem sem contradizer tudo o que já foi estabelecido sobre ela nos capítulos anteriores. E a própria Gemma não se limita a viajar para O Além - ela também traz coisas de lá para cá, invertendo a lógica que sustentou a franquia desde o primeiro filme. São adições que abrem caminho para novos desdobramentos sem atropelar o que já foi construído, e que sinalizam um fôlego criativo bem-vindo numa saga que corria o risco de se acomodar na repetição.
Sobrenatural: Agora Entre Nós não é o capítulo mais assustador da franquia, e essa é sua maior fragilidade — quem espera a tensão sufocante do filme original ou de Capítulo 3 pode sair do cinema com a sensação de que faltou aperto. Mas tem virtudes suficientes, como elenco, mitologia expandida e um olhar mais afetivo sobre o terror, para justificar sua existência e manter a saga viva para o próximo capítulo.
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