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Crítica

Sob a Pele | Crítica

O sexo e a cidade

Marcelo Hessel
14.05.2014
23h00
Atualizada em
21.09.2014
15h18
Atualizada em 21.09.2014 às 15h18

A busca pelo amor pode ser o maior dos horrores, como sugere Sob a Pele (Under the Skin, 2013), o primeiro filme do diretor Jonathan Glazer (Sexy Beast, Reencarnação) em quase dez anos, adaptação do romance homônimo de Michel Faber e uma mistura de Michelangelo Antonioni com Minha Noiva É uma Extraterrestre.

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Coincidência ou não, o cabelo moreno da predadora alienígena vivida no filme por Scarlett Johansson está igualzinho ao de Monica Vitti em A Noite, o segundo filme da Trilogia da Incomunicabilidade de Antonioni. Para espelhar a incompletude do ser, Glazer e sua protagonista refazem o trajeto do cineasta italiano por dias e noites, ruas e festas, num lugar onde tudo parece meio abandonado ou à beira do fim - Milão no caso de A Noite, a Escócia e seus vazios em Sob a Pele.

A procura da sensual extraterrestre por humanos machos que a alimentem obviamente é pensada como alegoria das coisas que separam homens e mulheres desde sempre; não há nada no comentário de Glazer sobre a solidão das pessoas, nem mesmo a promiscuidade, que já não houvesse no tempo de Antonioni. O que Sob a Pele traz a esse verdadeiro subgênero que é o drama-de-incomunicabilidade é um senso de horror tipicamente britânico, uma tradição que vai de Nicolas Roeg aos filmes recentes de Ben Wheatley.

Porque estão sempre muito próximos do horror esses cenários do interior e da Costa do Reino Unido, atraentes por sua vastidão - que em Sob a Pele é explorada de carro, estrada afora, sob neblinas que tornam todo horizonte mais infinito - mas que nessa vastidão implicam um isolamento. A cena de Sob a Pele em que uma mulher no mar fica presa na correnteza e não consegue nadar de volta à praia sintetiza esse drama: a vontade de buscar o horizonte mas de ser incapaz de sair do lugar.

Glazer recorre a paisagens de impacto para criar essa opressiva geografia humana - como a floresta de galhos-espinhos que "violentam" a protagonista - enquanto estiliza, com a ajuda da trilha sonora saliente de Mica Levi, as cenas das "refeições" da alien. Acondicionada entre a estilização e a fotografia calculada, num filme que não se arrisca como os terrores de Roeg ou Wheatley, resta a Scarlett Johansson, para compor a personagem, fazer a sua melhor cara de paisagem.

Sob a Pele | Cinemas e horários

Nota do Crítico
Regular