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Crítica

Sob o Mesmo Céu | Crítica

Palavras não ditas carregam um peso tão grande quanto as que são proferidas

Aline Diniz
10.06.2015
15h58
Atualizada em
10.06.2015
14h45
Atualizada em 10.06.2015 às 14h45

Sob o Mesmo Céu (Aloha) sofreu muito antes mesmo de ser lançado. Alvo direto de críticas negativas dos executivos da Sony, que mostraram sua insatisfação com o filme em emails que acabaram vazados, a nova produção de Cameron Crowe chegou aos cinemas americanos e acabou recebendo ainda mais opiniões negativas devido à "falta de diversidade", trazendo um elenco predominantemente branco. Sem saber de todas essas controvérsias, porém, fui assistir ao longa. O resultado foi a prova de que é muito mais prazeroso assistir a um filme sem saber tanto sobre ele, seja da sua história na frente ou atrás das câmeras.

Brian Gilcrest (Bradley Cooper) é um cara que não está feliz com sua vida. Apaixonado pelo espaço desde criança, ele acaba tendo que trocar seu trabalho no exército por uma vaga no setor privado após a recessão de 2008. Trabalhando agora para uma empresa multimilionária comandada pelo excêntrico Carson Welch (Bill Murray), ele precisa ir ao Havaí em uma nova missão.

O grande elenco do longa funciona bem junto e Cooper cumpre sua função ao parecer insatisfeito. Ele perdeu a mulher que amava (Rachel McAdams) e ainda precisa lidar com o fato de que sua empresa está prestes a quebrar um tratado mundial e colocar uma ogiva nuclear em um satélite que está para ser lançado. Quieto, Gilcrest contrasta bem com sua colega de trabalho, a verborrágica Allison Ng (Emma Stone).

Sob o Mesmo Céu não tenta ser mais do que se propõe. Com diálogos rápidos, confusos e desconexos, o filme aborda uma questão que cada vez mais exacerbada na era da internet e seus curtos tuites: a falta de palavras. Mesmo que todo mundo queira dizer algo, muitas vezes nada é dito. Woody (John Krasinski) é a personificação disso. Todos os dilemas, todos os problemas do longa se dão pelo fato de que ninguém fala exatamente o que quer dizer, o que repercute em relacionamentos quebrados; tanto pessoais quanto de negócios. Tudo acaba ficando nas entrelinhas.

Cameron Crowe, que escreveu e dirigiu o longa, tem uma boa filmografia que aborda o comportamento humano em suas diversas formas. Sob o Mesmo Céu está longe de ser seu melhor trabalho, mas introduz uma nova variável na questão. Estamos mesmo tão solitários no mundo quanto achamos? Ou precisamos apenas estender a mão para encontrar alguém que esteja disposto a dividir todos esses sentimentos que acabam engarrafados?

Não há defesa para alguns pontos de Sob o Mesmo Céu que acabam conflitando com a mensagem que Crowe quer passar. Falhas de personagem acabam deixando-os cartunescos, transformando Ng na jovem pró-ativa que quer se provar em um ramo predominantemente masculino; Gilcrest no garoto de ouro; Tracy (McAdams) na esposa-troféu, sempre divertida e disposta; Welch no empresário ganancioso... Da mesma forma, a inconsistência do roteiro faz com que tudo acabe acontecendo de forma muito rápida, sem que o devido desenvolvimento seja dado para cada etapa da evolução de Gilcrest do homem ranzinza que pousa no Havaí para um projeto de garotão que escolhe aproveitar a vida ao lado de alguém que o aceite.

Crowe pode não ter acertado por completo com Sob o Mesmo Céu, mas o filme não perde sua importância em determinar o peso das palavras - tanto aquelas que foram ditas quanto as que ficaram presas e nunca saíram.

Nota do Crítico
Regular