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Filmes
Crítica

Só por uma Noite aposta no literal e desperdiça premissa

Faltam tesão e muita confusão no The Purge do sexo

Omelete
4 min de leitura
20.08.2026, às 17H57.

Poucas entidades em Hollywood são tão superestimadas quanto a Black List, a lista informal que circula por agências de talentos em Los Angeles ranqueando os melhores roteiros originais não produzidos na indústria. A prova disso é que Só por Uma Noite encabeçou a Black List de 2024, e o filme que resultou desse roteiro, na melhor das hipóteses, é uma boa ideia mal aproveitada de comédia romântica.

Que ideia é essa? Imagine um futuro parecido com aquele de The Purge, só que em vez de uma noite de crime liberado o governo americano estabelece uma noite de sexo liberado para a sua população. Nesse futuro de distopia, governado pelos conservadores, todos os outros 364 dias do ano são dias de celibato para quem não é casado. Isso obviamente cria uma demanda reprimida sinistra, e no filme a população solteira de Nova York reage à noite de sexo como se fossem gatos no cio no sábado de Carnaval.

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Ou pelo menos é isso na teoria. No fim de semana de estreia, antes de o filme frustrar expectativas de arrecadação, o diretor e roteirista Will Gluck deu uma entrevista à revista Variety dizendo que cortou muitas das cenas de nudez e de sexo, seguindo reações que ele e a Universal filtraram a partir de sessões-teste. Gluck defende que as cenas de sexo tiram as pessoas do filme e eram uma distração, porque o foco é em um único casal, interpretado por Monica Barbaro e Callum Turner, que se conhece e se desencontra a noite inteira enquanto eles tentam transar com outras pessoas antes que o tempo acabe.

Por esse resumo dá pra depreender que Só por uma Noite se desenrola como uma comédia romântica tradicional de boy-meets-girl. Tem o momento do primeiro encontro meio constrangedor, daí eles se aproximam, rola o teste de confiança no terceiro ato, e por fim o casal acerta as suas diferenças. Todo o discurso por trás do filme também faz uma defesa do amor romântico porque afinal a noite de selvageria serve de alegoria para o mundo das redes sociais e dos aplicativos de paquera, onde a quantidade de gente disponível na verdade é uma grande distração.

Só Por uma Noite
Divulgação

O problema de Só por uma Noite não está propriamente nesse discurso do amor romântico, porque afinal de contas é pra isso que serve a fantasia idealizada desse gênero e seria muito estranho se o filme fugisse dessa fórmula. O problema é que mesmo como comédia romântica ele não funciona muito bem. A química entre Monica Barbaro e Callum Turner deixa bastante a desejar, e o lado caótico e tesudo que o marketing vende como o "The Purge do sexo" está muito longe de se tornar realidade. Você procura um filme apimentado e caótico pela madrugada de Nova York? Talvez seja melhor ficar com um clássico como Depois de Horas, de Martin Scorsese, pra tomar como parâmetro.

Na realidade, se você pegar qualquer comédia adolescente na linha Superbad ou Projeto X você provavelmente vai encontrar um filme melhor, porque afinal de contas a noite da despedida do colegial em que os virgem estão loucos pra transar não deixa de ser uma corrida contra o relógio também. O que Só por uma Noite está oferecendo - a exemplo de um sem-número de outros filmes de “alto conceito” - é apostar no literalismo.

Você nem precisa ir muito longe para achar comédias românticas espertinhas e cheias de tesão e uma delas se chama Todos Menos Você, que é dirigida pelo próprio Will Gluck. Acho que parte da frustração com Só por uma Noite vem do fato de que esse diretor tem se provado uma voz irônica bastante competente dentro desse gênero, em filmes que reinterpretam comédias clássicas de Shakespeare, como A Mentira e Todos Menos Você. Infelizmente Gluck deu uma engasgada, num filme que exigia uma encenação mais vigorosa do que se promete um cenário de confusão, e a resposta da bilheteria meio que mostra que desta vez algo se perdeu no meio do caminho.

Talvez tenha uma lição aí. Esse caso todo de Só por uma Noite serve pra ilustrar como Hollywood está sofrendo hoje em dia uma crise que não se resume a um problema de criatividade. Na verdade, tem criatividade demais nos departamentos de marketing na hora de emplacar um projeto como esse The Purge do sexo. A questão é que não necessariamente uma ideia boa de vender se transforma automaticamente numa história boa de contar.

Nota do Crítico

Só Por uma Noite

One Night Only

Ver ficha completa Lauch Icon
16 Comédia, Romance, Ficção científica
Duração: 102 min
Direção: Will Gluck
Roteiro: Travis Braun
Elenco: Monica Barbaro, Callum Turner, Maya Hawke, Julia Fox, Molly Ringwald, LeVar Burton, Okieriete Onaodowan, Este Haim, Ziwe
Data de lançamento: 28 de julho de 2026

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