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Crítica

Sniper Americano | Crítica

Clint Eastwood mistura retrato intimista e "western de guerra" para contar a história do maior atirador de elite dos EUA

Natália Bridi
19.02.2015
14h39
Atualizada em
29.06.2018
02h45
Atualizada em 29.06.2018 às 02h45

As lições de heroísmo de Chris Kyle começaram na infância. À mesa de jantar, seu pai dividiu a humanidade em lobos, cordeiros e cães pastores. Kyle decidiu ficar com o terceiro papel, seria aquele que livra os inocentes do mal. Como um bom texano, tentou a vida de caubói, mas os tempos de glória dos vaqueiros estavam no passado. Foi no exército então que encontrou o caminho perfeito para assumir a sua vocação.

Dentro da força de operações especiais da Marinha dos Estados Unidos, os Navy Seals, tornou-se uma lenda: nas suas quatro passagens pelo Iraque, somou 165 mortes confirmadas (de um total de 255). Dono de uma mira precisa, o atirador de elite era o pastor que protegia seus colegas de ameaças aparentemente invisíveis. Fazia com que os soldados acreditassem que alguém olhava por eles nos momentos de perigo.

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Sniper Americano (American Sniper, 2014) conta essa história de habilidade e bravura, mas também mede o peso da responsabilidade de ser um herói. O filme roteirizado por Jason Hall, baseado no livro escrito pelo próprio Kyle ao lado de Scott McEwen e Jim DeFelice, coloca na balança a vida pessoal do atirador. Contrasta o “Velho Oeste do Oriente Médio”, como descreve um dos soldados, com a sua família nos EUA.

Clint Eastwood, que assumiu a direção depois que Steven Spielberg deixou a produção por conta do orçamento limitado, constrói o filme como um estudo psicológico do personagem-título. Desfaz o mito para entender não o guerreiro, mas o homem disposto a sacrificar tudo pelo seu país. Troca a grandiloquência da guerra pelas observações intimistas. Ao mesmo tempo, não abandona os elementos de entretenimento, contornando as possíveis restrições orçamentárias ao reproduzir a estrutura de um western no contexto do Iraque, com o encontro de dois atiradores rivais no deserto e os dilemas entre o mocinho e a família.

Bradley Cooper, que também produz o filme, atesta em cada cena seu comprometimento com a história. O ator mudou seu corpo (ganhou peso e músculos), aprimorou o sotaque texano, ganhou intimidade com rifles e estudou cada trejeito de Kyle. Ainda assim, não escancara o esforço. Sua atuação é natural, contida e explosiva nos momentos certos, retratando perfeitamente um homem que carregava consigo o peso do campo de batalha, mas era incapaz de dividir essas dores com a esposa.

Do outro lado da balança, Sienna Miller mostra como Taya Kyle acompanhou o processo de desumanização do marido. A ingenuidade dos sonhos heroicos desdobrada na incapacidade de abandonar a guerra. Chris Kyle voltava para casa, mas não saía do Iraque. Miller capta essa desolação, a consciência de estar em último no código que regia a vida do marido - “Deus. Nação. Família.” -, e seu entrosamento com Cooper torna crível a relação que é intrínseca à trama.

O filme também mostra um outro lado do patriotismo que leva homens e mulheres para a guerra. O amor à nação os acompanha até o alistamento, mas esse conceito abstrato não os sustenta no campo de batalha. A caveira do Justiceiro, que aparece na HQ lida por um soldado para depois ganhar os uniformes e o jipe do pelotão, simboliza essa transformação. A luta passa a ser pelos colegas. O símbolo não é mais a bandeira, mas aquilo que os une em torno do mesmo objetivo, a sobrevivência e a justiça pelo grupo. Se o filme foge da política, sem nunca realmente questionar a guerra, ao menos evita os velhos clichês norte-americanos.

Ao contrário do Vietnã, que rendeu títulos como Apocalipse Now e Nascido para Matar, os conflitos no Iraque e no Afeganistão tiveram até agora uma representação cinematográfica mais focada na "guerra ao terror" do que nos efeitos da batalha, com exceção de filmes como Entre IrmãosO Mensageiro e (o ironicamente chamado) Guerra ao Terror. Envolvido pela responsabilidade de homenagear Kyle, Sniper Americano é conservador demais para levar à catarse como os clássicos sobre o conflito sessentista. No seu western de guerra, porém, Eastwood criou um retrato único sobre um dos grandes conflitos deste século.

Sniper Americano estreia no Brasil em 19 de fevereiro.

Nota do Crítico
Ótimo