Simonal

Créditos da imagem: DowntownFilmes/Divulgação

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Crítica

Simonal

Tirando Simonal do ostracismo, cinebiografia brilha pela história única e a parceria entre ator e diretor

Julia Sabbaga
07.08.2019
12h14
Atualizada em
08.08.2019
07h06
Atualizada em 08.08.2019 às 07h06

Com Bohemian Rhapsody, Rocketman, e cinebiografias já anunciadas de Elvis Presley e David Bowie, não é difícil enxergar que vivemos no auge do gênero. O predomínio do estilo não é exclusivo de Hollywood, e tem se manifestado no Brasil com a recente produção focada em Erasmo Carlos e o vindouro filme de Claudinho e Bochecha, então não é nenhuma surpresa que Wilson Simonal, uma das personalidades mais intrigantes da música brasileira, ganhasse logo o seu próprio longa. Dirigido pelo montador do documentário Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei (2008), Leonardo Domingues, Simonal segue a fórmula tradicional das cinebiografias, mas brilha mais forte pelo apelo único do cantor, sustentado por uma bela técnica e um grande protagonista em Fabrício Boliveira.

Seguindo a rota do gênero, Simonal foca na ascensão e queda do músico, se aproveitando da história singular de Wilson Simonal de Castro. Um negro carioca com todo jeito de malandro, ele acha seu espaço no holofote e constrói uma improvável trajetória meteórica, comparável apenas à sua brusca queda, após ser considerado dedo-duro na ditadura. Assim como o documentário, Simonal conta a desastrosa história do envolvimento do músico com o DOPS, mas acerta ao não isentá-lo de culpa. Nas duas obras, ele é responsabilizado pela tortura de seu contador, mas o filme foca mais na causa inconsequente do ocorrido, explorando os efeitos da ação na vida do cantor. Seu ostracismo da sociedade artística é retratado como resultado de sua posição incômoda para indústria da época, de um negro bem-sucedido.

Assim como Bohemian Rhapsody, que escolheu dublar a voz de seu intérprete, Simonal não pretendeu achar um ator que tivesse um vocal semelhante à uma das vozes mais potentes do Brasil. Mas ao contrário da obra de Bryan Singer, Simonal não gasta longos tempos das performances musicais focando no rosto do vocalista, e se utilizou também de vídeos históricos para mostrar apresentações do cantor. O recurso, que poderia ficar destoante, apenas fez do filme mais coeso, já que também usa antigos registros para recriar o Rio de Janeiro da época. Com isso, a produção mergulha o espectador em uma época e não perde a chance de deslumbrar o público com aquele vocal assombroso. Simonal se aproveita bem do gênero para embalar seu filme com alguns dos maiores hits do cantor, criando uma trilha sonora deliciosa de ouvir.

Tudo isso não seria possível sem o protagonista perfeito, encontrando na pele de Fabrício Boliveira. O ator de Faroeste Caboclo e Tungstênio achou um papel certeiro, e transitou com leveza entre cenas focadas no jeitão malandro e o drama mais pesado do terceiro ato. Boliveira chama atenção principalmente por um magnetismo difícil de atingir, conseguindo levar à tela toda malemolência hipnotizante de Wilson Simonal, sem também perder o tempero arrogante de todo músico em seu auge.

Outro espanto de Simonal vem da estreia de Leonardo Domingues na direção de um longa. Existem dois planos sequências construídos com maestria, mas um deles não poderia deixar de ser mencionado. Quando o músico deixa o palco para dar tomar um cafezinho do lado de fora do local, sustentando uma plateia que segue cantando “Meu Limão, Meu Limoeiro” mesmo com sua ausência, a sequência filmada por Domingues é a manifestação perfeita do poder que Simonal tinha de sua plateia. Com um ritmo cativante, a sequência contínua representa o domínio do artista sobre o espectador, tanto no filme, quanto na cena.

Simonal se utiliza do já super-utilizado recurso de começar e terminar uma cinebiografia com a mesma cena, mas até neste quesito a produção se destaca. A magia do seu encerramento é recheada de melancolia, emocionando por representar perfeitamente a solidão do cantor depois de ser rejeitado. A carreira de Simonal foi única, e merecia uma cinebiografia singular para contá-la. Felizmente, a parceria de Leonardo Domingues e Fabrício Boliveira fez jus a uma das histórias mais marcantes da música nacional.

Nota do Crítico
Ótimo