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Crítica

Sicario - Dia do Soldado

Sem o peso do autorismo, continuação encontra sua força na combinação eficiente de bases do faroeste

Marcelo Hessel
28.06.2018
17h00
Atualizada em
29.06.2018
10h00
Atualizada em 29.06.2018 às 10h00

Despida dos vernizes do primeiro Sicario - todos os maneirismos que o diretor Denis Villeneuve carrega consigo de filme a filme - a continuação Sicario - Dia do Soldado respira novos ares. Villeneuve terceiriza a direção para o italiano Stefano Sollima e o resultado é um filme que, por sua própria condição de produto franqueado, não tem as mesmas pretensões de obra de arte e pode se entregar a convenções de gênero sem culpa.

Leia a crítica de Sicario - Dia do Soldado

Que convenções são essas? Essencialmente, contextos, situações e perfis do faroeste, atualizados para a guerra ao narcotráfico e ao terrorismo internacional. No novo filme, os personagens de Josh Brolin e Benicio Del Toro se aliam para criar uma guerra artificial entre cartéis de droga, que estariam ajudando jihadistas a entrar nos EUA pelo lado mexicano. Sicario 2 aproveita personagens e tons do primeiro filme para não descaracterizá-lo - a visão de mundo no geral permanece bem niilista e machista - mas joga com regras de vários subgêneros (o western de abdução, o de fronteira, o de travessia) para oferecer ao espectador uma experiência descomplicada e menos pedante de expectativas e recompensas.

Nesse sentido, é central o trabalho do roteirista Taylor Sheridan, já um especialista em conceber momentos de ação pautados pela crueza e esvaziados de sentimentalismos. O cenário ideal de Sheridan é o do vácuo moral do Velho Oeste americano, que ele revisitou bem em filmes como A Qualquer Custo. Não por acaso, Sicario 2 adquire a forma de um intenso faroeste de comboio no seu longo clímax, da emboscada na estrada até a jornada de travessia de Alejandro (Del Toro) - cujo perfil aqui se aproxima mais do velho pistoleiro solitário dos westerns, que carrega sozinho o peso da civilização e paga o preço sacrifical por isso no fim.

A estrutura de filme-mosaico, que poderia até gerar um parentesco de Sicario 2 com obras como Traffic, serve menos para criar um painel geopolítico supostamente complexo do que para oferecer situações funcionais de suspense. Que a própria premissa relacionando coiotes e jihadistas seja abandonada ao longo do filme é a grande demonstração de que Sicario 2 tem intenções bem mais modestas do que fazer um grande relato denuncista. O filme se contenta com a narrativa como um fim em si mesma, e aí reside sua força: o poder de fogo americano, a tragédia dos mexicanos, o casuísmo dos mercenários, a frieza dos políticos - tudo isso age dentro de Sicario 2 em função da ação e do suspense.

Essa eficiência crua, direta, acaba reforçando a brutalidade que é intrínseca a essa história que Sheridan e Sollima estão contando, com apoio da trilha de Hildur Guðnadóttir - que trabalhou como solista de cello na gravação da música do primeiro filme e aqui reaproveita os temas circulares e extenuantes do finado Jóhann Jóhannsson. Da mesma forma que Guðnadóttir chega com despretensão e recicla parte da música do primeiro filme, Sicario 2 no geral assume sua vocação para a derivação: os planos finais encerram o filme com uma homenagem-cópia a O Poderoso Chefão sem ter medo da comparação. Depois das vaidades de artista de Denis Villeneuve, é um alívio que Sicario 2, com tanto despudor, se reconheça industrial - no sentido mais essencial da palavra, como uma combinação de forças para realizar algo.

Sicario - Dia do Soldado
Sicario: Day of the Soldado

Ano: 2018

País: EUA, Itália

Classificação: 16 anos

Duração: 100 min

Direção: Stefano Sollima

Roteiro: Taylor Sheridan

Elenco: Joseph A. Garcia, Barrett James, Christian Pedersen, Ryan Jason Cook, David Manzanares, Gonzalo Robles, Gregory Paul Valdez, Kelly V. Lucio, James Devoti, Howard Ferguson Jr., Catherine Haun, J.D. Garfield, Jackamoe Buzzell, Ryan Begay, Rob Franco, Cassandra Rochelle Fetters, Stafford Douglas, Chris Adams, David Castaneda, Abigail Marlowe, Tasha Ames, Connor Skific, Bruno Bichir, Michael Love Toliver, Jake Picking, Manuel Garcia-Rulfo, Ian Bohen, Matthew Modine, Isabela Moner, Jeffrey Donovan, Christopher Heyerdahl, Catherine Keener, Josh Brolin, Benicio del Toro

Nota do Crítico
Ótimo