Sheep in the Box | Hirokazu Kore-eda encara IA em drama gentil até demais
Na história, pais em luto tentam substituir o filho com um humanoide robótico idêntico à criança
Créditos da imagem: NEON
Me interrompa se você já ouviu essa antes: após perder um ente querido, uma família encomenda um robô humanoide idêntico ao falecido para tentar ajudar no processo de luto, e logo descobre que é impossível substituir uma pessoa por uma réplica, ainda que esta tenha sua própria identidade. Você pode pensar em IA - Inteligência Artificial (2001), ou no icônico episódio “Be Right Back” de Black Mirror, mas desta vez a premissa foi adotada pelo mestre japonês Hirokazu Kore-eda em Sheep in the Box, seu mais novo trabalho.
Diretor de Assuntos em Família, Broker e Monster, entre outros dramas cuja gentileza serve de porta de entrada para histórias que se equilibram na linha entre o genuinamente emocionante e o emocionalmente manipulativo, Kore-eda se aproxima desse enredo através do casal Otone e Kensuke Komoto (Haruka Ayase e Daigo Yamamoto), uma arquiteta e um carpinteiro que perderam o filho, Kakeru (Kuwaki Rimu), há poucos anos, numa situação que uns acreditam ser um acidente, e outros enxergam como crime. Na superfície, eles parecem bem. Ela desenha casas modernistas para famílias com boa renda e ele segue uma vida tranquila na madeireira onde trabalha há anos, encaixando um jogo de baseball com o time não profissional no qual joga aqui e ali. Tudo muda quando eles são convidados pela REbirth, empresa que faz esses automatons realistas, para uma visita à sua oficina. Eles foram selecionados para um programa que oferece o humanoide de graça para pais que perderam os filhos em situações traumáticas.
Inicialmente incertos, mas curiosos, eles são convencidos quando cruzam com outra mãe visitando a REbirth, não para adotar um robô, mas para realizar uma manutenção. A questão é que, se não fossem avisados pelo próprio menino que acompanhava a mulher, os Komoto jamais teriam dito que aquela criança não era humana. Eles decidem tentar – Otone se mostra mais disposta a abraçar a ideia desde o começo, enquanto Kensuke imediatamente compara a ideia a cuidar de um novo Tamagochi. Quando um novo Kakeru surge em sua casa, cada um passa a ter um dilema diferente. Ela o trata imediatamente como um filho, e aos poucos percebe diferenças cruciais com a criança que morreu. Ele, por outro lado, se recusa até a ser chamado de pai, mas lentamente percebe traços de seu filho na máquina.
Estes dilemas são encenados por Kore-eda com calma – talvez até demais. Com pouco mais de duas horas, Sheep in the Box encontra algumas dinâmicas curiosas numa proposta outrora familiar, mas não consegue escapar de uma previsibilidade temática que se anuncia desde o começo. O decorrer da história e das interações dos personagens segue o caminho que você espera a todo momento, incluindo quando percebemos que o novo Kakeru e outras crianças-robôs estão criando sua própria diretriz – não para destruir os humanos, mas para viver em paz sem eles. “Nós fomos criados para ser o passado dos humanos,” diz um adolescente robótico que guia os menores nessa jornada. “Mas nós somos seu futuro.”
Com toques de O Senhor das Moscas mas a sensibilidade de um Pequeno Príncipe, Sheep in the Box opera dentro do esperado e evoca reações em nós mais pela capacidade de Kore-eda de construir um artifício do que de momentos que surgem naturalmente de sua narrativa. Ayase cumpre bem a função da mãe num mix de luto/euforia e Yamamoto é bem magnético como um pai que não esconde o que pensa, e seus melhores momentos vêm quando Kore-eda reforça as diferenças entre um Kakeru e o outro, e eles respondem aceitando isso.
É exatamente nesses exemplos que Kore-eda consegue compor algo mais original. Sheep in the Box se passa “num futuro próximo” e sua aplicação de IA é familiar para todos nós. A tecnologia está presente em todo o filme, inclusive nos humanóides, e a melhor escolha do diretor é enfatizar justamente a existência de algo artificial em tudo. Kakeru, por exemplo, tem um botão de desligar. Ele dorme numa caixa carregadora, e se desliga automaticamente se os pais se afastarem muito. Eventualmente, tanto o menino quanto os adultos entendem que isso, e pequenas diferenças entre a personalidade dele e de seu verdadeiro filho, significam que o Kakeru original nunca voltará.
A questão, impõe o filme, não é substituir o humano com o algoritmo, mas entender esse novo tipo de existência como algo em si mesmo. Assim como no lado emotivo da trama, Sheep in the Box não dá grandes passos nessas ideias intelectuais, e apesar disso fazer sentido dado o foco de Kore-eda, é uma pena não ver o cineasta tentando se aprofundar nessas questões. O pouco que ele faz, afinal, é o que dá a seu filme aquilo no qual ele mais se interessa: uma identidade própria.
Crítica escrita em 17 de maio no Festival de Cannes 2026. Sheep in the Box estreia em breve no Brasil.
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