Sequestro Relâmpago

Créditos da imagem: Sequestro Relâmpago/Globo Filmes/Reprodução

Filmes

Crítica

Sequestro Relâmpago

Sem cair no maniqueísmo, filme humaniza uma situação de violência e traz para os holofotes um debate social necessário

Mariana Canhisares
23.11.2018
15h46
Atualizada em
24.11.2018
10h57
Atualizada em 24.11.2018 às 10h57

Ao retratar um crime no cinema é fácil tomar um caminho maniqueísta e criar uma relação simplista e banal entre a “pobre vítima” e os “maldosos bandidos”. Felizmente, a diretora Tata Amaral toma um rumo muito mais interessante em Sequestro Relâmpago. Inspirada por uma história real, ela leva o espectador a sentir empatia também pelos sequestradores conforme sua protagonista luta para sobreviver à noite mais longa de sua vida.

Saindo de um bar com as amigas, Isabel (Marina Ruy Barbosa) é abordada por dois homens que anunciam o sequestro. A intenção de Matheus (Sidney Santiago Kuanza) e Japonês (Daniel Rocha), claramente inexperientes, é sacar um dinheiro da conta dela e partir para a próxima vítima. No entanto, as coisas não correm conforme o planejado e a dupla toma a arriscada decisão de mantê-la refém até o amanhecer.

Era de se imaginar que, com essa sinopse, o filme seria predominantemente tenso. No entanto, Amaral quebra essa expectativa e alterna cenas realmente intimidantes com momentos leves, mostrando o trio se identificando e encontrando pontos em comum. É um dos grandes méritos da produção: vítima e sequestradores são enxergados como seres humanos e, portanto, têm sentimentos e histórias para além do crime.

Para trabalhar a complexidade de cada um, o roteiro não relativiza o sequestro. Na realidade, coloca os jovens constantemente diante de escolhas e encontra a humanidade deles nas decisões delicadas e nos erros. Assim, ao passo que mostra a evolução da sua protagonista, primeiramente uma menina assustada, para uma mulher em busca da sua voz em um contexto tão opressor, Sequestro Relâmpago evidencia que o principal motor violência urbana é, sim, a desigualdade.

Deste modo, os debates sociais, pontos focais da narrativa, não são vazios, nem caem no panfletário. O conceito do longa se sustenta sobretudo nas performances e, sem exceção, os três atores transitam com naturalidade nos diferentes níveis de tensão, revelando gradualmente a tridimensionalidade dos personagens. Sidney Santiago Kuanza, porém, é um claro destaque. Mesmo contido, ele cria tantas camadas que é difícil formular uma opinião definitiva sobre Matheus. Tudo o que o personagem fez é condenável, mas o ator estabelece uma relação de afinidade por ele e torna inevitável a decepção com suas atitudes.

Embora existam uma ou outra quebra de ritmo, causadas sobretudo pelos momentos de deslocamentos pela cidade, Sequestro Relâmpago espertamente se vale das incongruências sociais de São Paulo para trazer para a mesa uma discussão necessária sobre a violência contra a mulher e a desigualdade social no Brasil. Argumentos estes que não devem ficar datados tão cedo.

Nota do Crítico
Ótimo