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Sem Amor | Crítica

Diretor de Leviatã volta à pequena história de perda familiar em mais um relato sobre as carcaças da Rússia

Marcelo Hessel
14.02.2018
17h36
Atualizada em
14.02.2018
19h04
Atualizada em 14.02.2018 às 19h04

Depois de arriscar em Leviatã um painel ambicioso que considerasse agentes sociais diversos da Rússia de hoje, o cineasta Andrey Zvyagintsev, de O Retorno e Elena, volta em Sem Amor a contar uma história de perda familiar. Seu relato necrológico sempre acaba abordando falências de instituições e de costumes russos, mas em Sem Amor essa pretensão não está no texto em si, como em Leviatã, que coloca Igreja e Estado no centro de seu drama, e sim irradia da trama e do núcleo familiar.

Acompanhamos um casal de Moscou que está em vias de se divorciar, e que desconta suas frustrações em seu filho pequeno. Quando o menino de repente desaparece, toda a comunidade do bairro se movimenta em um esforço de busca. Como é tradicional no cinema de Zvyagintsev, seus protagonistas vão aos poucos sendo descamados de suas esperanças, ao mesmo tempo em que a Rússia se apresenta a eles não como uma pátria-mãe capaz de acudir e acolher na necessidade, e sim como uma gigantesca carcaça fantasmagórica que se sustenta em normas de conduta e ilusões de coletividade.

A polícia é o principal componente em Sem Amor a representar o Estado, numa chave que se parece bastante com o relato kafkiano dos dramas romenos dos anos 2000: ou seja, a polícia existe em Sem Amor para ser ao mesmo tempo um fardo burocrático patético e também o coro que o tempo inteiro relembra os protagonistas do peso moral que eles carregam. Zvyagintsev reduz outros fatores sociais ao mínimo, e se concentra na erosão das relações pessoais, que contamina mesmo os gestos de afeto - como a transa com a grávida que acontece sob uma luz mórbida, desgraçada.

Nesse ponto, Zvyagintsev parece se aproximar também do registro misantropo mais incisivo de um Michael Haneke - que enxerga em todo gesto de seus personagens um grau de hipocrisia. A princípio Sem Amor parece um conto moral com a clara mensagem de que "it takes a village to raise a child", mas aos poucos o filme vai se consumando no tal desamor. Um dos planos finais, que mostra as crianças brincando do lado de fora da janela, inclusive lembra o final de Caché de Haneke: todo acaso no mundo é antes de mais nada um potencial de destruição.

A diferença é que Zvyagintsev, ao contrário de Haneke, busca a estetização. A atenção com a fotografia e o rigor com que dá ao filme todo um tom de velório são as armas na mão do cineasta russo, que no mais se contenta com o discurso desesperançado e se fecha para novas possibilidades de empatia. Desde os primeiros planos do filme, em que o cordão de isolamento separa o cenário bucólico e a paisagem dos conjuntos habitacionais, Sem Amor já nos diz que a urbanidade é terreno não só infértil como tóxico. Dos discursos no rádio aos travelings por edifícios arruinados (os elefantes brancos são os grandes protagonistas dos filmes de Zvyagintsev), tudo serve de símbolo de fim de civilização - o eterno inverno nuclear da Rússia.

Nota do Crítico
Bom