Filmes

Crítica

Segredos de Sangue | Crítica

Park Chan-wook adapta aos fetiches americanos as suas obsessões com sexo e violência

Marcelo Hessel
13.06.2013
17h00
Atualizada em
29.06.2018
02h46
Atualizada em 29.06.2018 às 02h46

Para o diretor Park Chan-wook (Oldboy), sexo e violência estão relacionados, e a descoberta de um tem o outro como efeito imediato. Esse traço de seus filmes coreanos - que na opinião de muitos se confunde com misoginia - não se perde em sua estreia hollywoodiana.

segredos de sangue

None

segredos de sangue

None

segredos de sangue

None

Segredos de Sangue (Stoker) parte de um subgênero familiar ao público ocidental, o dos romances de formação, para contar a história de India Stoker (Mia Wasikowska). Como outras heroínas virgens de Park, a adolescente passará por uma transformação ao longo do filme - e ela não vê a hora de chegar. "Ser adulto é ser livre", diz, com a saia ao vento. Por mais que pareça fria à primeira vista, India já tem uma noção do sexo, do seu potencial libertador, mas não tem ainda noção da violência.

Isso se resolve, numa espiral de tretas geracionais e traumas mal resolvidos, a partir do dia do funeral do pai de India, quando ela descobre ter um tio, Charles (Matthew Goode). O parente resolve ficar, para satisfação da viúva, Evelyn (Nicole Kidman). Enquanto India conta impaciente os dias para a vida adulta, Evelyn quer parar de envelhecer - um conflito que a beleza à Dorian Gray de Charles (quantos anos ele tem? 25? 40?) vem para deflagrar.

Não é por acaso que, já no nome, Segredos de Sangue se parece com o filme anterior de Park, Sede de Sangue. Ambos transitam entre gêneros (aqui, o bildungsroman logo vira terror) usando simbologias como fio condutor. A aranha subindo pela perna, a música a dois enquanto os martelos batem na cauda do piano, o cinto que é ao mesmo tempo falo e chicote - tudo remete à relação da violência com o sexo. Como um Conde Vlad viajante, depois de drenar o que o cinema fantástico coreano podia lhe dar, Park chega aos EUA jogando com o imaginário local (espingardas, sobrados, playgrounds) numa sedução que começa devagar antes de dar num dos seus característicos banhos de sangue.

Park se acha à vontade para fazer essas relações porque em Hollywood o sexo sempre se confundiu com o proibido, o ilegal, e talvez seja por isso que Segredos de Sangue, embora estilizadíssimo, não nos dê a impressão de ser um filme "estrangeiro". Na verdade, há ali muito do que nos acostumamos a ver nos thrillers eróticos americanos, em particular o jogo de poder que mulheres exercem sobre homens nesse tipo de filme.

Mas Mia Wasikowska não é Sharon Stone, e Park Chan-wook não é Adrian Lyne. Os melhores momentos são aqueles em que uma certa fantasmagoria, muito comum no cinema coreano, se impõe no filme. A magra e branca Mia Wasikowska obviamente se presta ao papel de espectro, e quando Park a enquadra no alto do escorregador (a relação de poder, em escadas, de cima pra baixo, é literal ao longo do filme) ou no gira-gira como se ela estivesse voando e assombrando seu pretendente, aí sim Segredos de Sangue soa estranho aos nossos olhos, uma estranheza bem-vinda.

É como se Park achasse uma forma de transformar em filme, nessa história que vai de fantasmas a femmes fatales, essa aproximação que ele faz entre os fetiches do cinema coreano e os do cinema americano.

Segredos de Sangue | Cinemas e horários

Nota do Crítico
Bom