Se Eu Fosse Vivo... Vivia abraça bizarrice em história genuinamente brasileira
Filme arrisca com elementos inesperados depois de se estabelecer com familiaridade confortável
Créditos da imagem: Divulgação
Se Eu Fosse Vivo… Vivia não demora a deixar claro que é um filme muito melhor aproveitado quando se conhece bem a cultura brasileira. Gírias, piadas e até a nossa natureza fofoqueira arrancam risos logo nos primeiros minutos do longa de André Novais Oliveira. Uma vez que nos acostumamos com as particularidades de Gilberto (Norberto Novais Oliveira) e Jacira (Conceição Evaristo), sentimos conforto por estarmos vendo personagens familiares, o que também aumenta nossa angústia quando os conflitos da história começam a surgir.
O casal de idosos é apresentado, inicialmente, como dois jovens da cidade de Contagem, em Minas Gerais. Depois de uma aparente briga, Gilberto ensaia uma serenata para conquistar o perdão de sua amada e levá-la para o baile. Apesar do convite funcionar, ela faz questão de deixar claro: o garoto ainda não está perdoado.
A tal festa, inclusive, é cenário para um momento que impressiona tanto isoladamente quanto no contexto maior do filme. Quando uma música romântica começa a tocar, vemos um abraço apaixonado entre os dois; a câmera próxima ao rosto destaca o sorriso e o olhar feliz do casal. Ao afastar o plano, vemos um ambiente lotado — de pessoas igualmente apaixonadas, não se engane, mas que à primeira vista não denota a intimidade compartilhada por Jacira e Gilberto.
Enquanto os dois voltam para casa, o espectador é levado para uma Contagem já contemporânea. Juntos há cinquenta anos, os protagonistas dividem uma vida simples, mas repleta de carinho. O amor entre os dois, mais uma vez, é mostrado da mesma forma que nos acostumamos a ver em avós brasileiros. Entre uma farpa e outra, os simples atos de descascar uma laranja ou fofocar sobre um conhecido que acabou de falecer são suficientes para entendermos o quanto a companhia de um importa para o outro.
Infelizmente, a fofura agressiva sai de cena quando Jacira adoece de maneira repentina. É impossível falar sobre o que acontece depois desse momento sem entrar em território de spoilers, mas essa virada também é essencial para compreender a mensagem do filme.
A partir desse momento, Novais Oliveira passa a se arriscar muito mais na narrativa. A contemplação, o silêncio e os enquadramentos abertos que marcam a primeira metade do filme seguem presentes, mas o que antes transmitia a ambientação familiar de uma cidade brasileira qualquer, agora é responsável pela carga dramática do enredo.
Essa inversão nos leva para rumos totalmente inesperados, e que podem desagradar parte do público por destoarem bastante do que estava sendo mostrado até aqui. Ainda assim, não deixa de ser louvável que o diretor consiga se fazer entendido mesmo quando aquilo que está em tela beira o surreal. A jornada que Gilberto passa a encarar, afinal, é tão reconhecível para o público quanto a parte mais alegre do longa.
Se Eu Fosse Vivo… Vivia deve deixar alguns boquiabertos em salas de cinema por aí. Talvez pela incredulidade frente às cenas finais, e com certeza pela reflexão quase imediata que ele causa. Não se preocupe se você sair da poltrona na dúvida se gostou ou não do que viu — na verdade, essa sensação costuma ser um ótimo sinal.
Se Eu Fosse Vivo... Vivia faz parte da programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, e ainda não possui previsão de estreia no circuito comercial.
Se Eu Fosse Vivo... Vivia
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