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Crítica

A Sapatona Galáctica coloca sáficas no protagonismo da galhofa

Animação australiana inverte lógica falocêntrica do besteirol em jornada de autorreconhecimento

Omelete
3 min de leitura
Pedrinho
20.02.2026, às 14H21.

E se existisse um planeta só de lésbicas? Essa é a premissa de A Sapatona Galáctica, uma comédia australiana escrachada com toques certeiros de críticas ao patriarcado. De forma lúdica e inovadora, o longa-metragem animado de Leela Varghese e Emma Hough Hobbs apresenta um mundo futurista onde o universo não é mais dominado pelos homens brancos héteros — como o filme gosta de ressaltar —, mas sim por uma sociedade mais diversa.

Nesse futuro utópico, conhecemos a introvertida princesa Saira, filha das rainhas que comandam a monarquia do planeta Clitópolis. A jovem monarca fica devastada após tomar um pé na bunda da caçadora de recompensas Kiki, que a considera carente demais. Saira então passa dias remoendo o fim do seu relacionamento, enquanto precisa parecer engajada para o baile sáfico, ao qual sempre vai sozinha, motivo de vergonha no mundo lésbico, que vê a solteirice como um problema sério.

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Porém, pouco tempo depois, Kiki é sequestrada pelos Maliens Brancos e Heterossexuais, o que leva Saira a deixar o conforto do planeta gay em busca de salvá-la no perigoso espaço aberto. Para resgatar seu antigo amor, ela precisa entregar seu Royal Labrys, a arma mais poderosa da comunidade lésbica. O único problema é... Saira não a tem! E para piorar, ela conta apenas com 24 horas para tentar salvar Kiki. Correndo contra o tempo, ela busca ajuda de uma antiga nave espacial de guerra, outrora pilotada por uma dupla de soldados para lá de preconceituosos.

Com dois pilotos falando atrocidades o tempo todo, a IA da nave se adaptou àquele vocabulário e raciocínio e assumiu uma personalidade ranzinza e ultrapassada. Esse embate ideológico entre a jovem progressista queer e a desatualizada inteligência artificial reacionária dá um tom especial às piadas e torna o humor mais democrático para quem não é — como dizem os jovens contemporâneos — cronicamente online com a comunidade LGBTQIA+.

Essa jornada, porém, não é apenas sobre o desenvolvimento emocional da protagonista; o debate vai muito além. O fato de Saira ser “emocionada” em suas relações é intrínseco à sua baixa autoestima e dependência emocional, que, em parte, são frutos da criação distante que recebeu. Para que ela supere isso, a dupla de diretoras incluiu mais uma peça no tabuleiro: a cantora Willow.

A relação das duas é o que quebra a dinâmica compulsiva da jovem princesa e permite que ela explore a posição de dominância pela primeira vez, fazendo com que a nova parceira passe pelo mesmo que ela passou. Essa escolha não é à toa, ninguém é intocável na animação. Mesmo os vilões incels, a ex-namorada tóxica e a própria Saira têm seus altos e baixos, mostrando que a desconstrução é um processo constante e instável.

É com essas discussões profundas sobre sexualidade e crescimento que A Sapatona Galáctica equilibra um humor escrachado e drama enquanto conta tudo isso com uma animação espetacular. Apostando nas cores da bandeira LGBTQIAPN+ para a sua paleta, a produção traz um visual deslumbrante e diverso, que imprime o filme na memória do espectador. Seu texto leve, mas cheio de subtextos pesados, mostra que é possível desconstruir sem sufocar, afinal, esta é a era em que até pronomes assustam.

Nota do Crítico

A Sapatona Galáctica

Lesbian Space Princess

2025
87 min
País: Austrália
Classificação: 16 anos
Direção: Emma Hough Hobbs, Leela Varghese
Onde assistir:
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