Sai de Baixo: O Filme

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Filmes

Crítica

Sai de Baixo: O Filme

Um dos maiores fenômenos do país no passado, Sai de Baixo chega aos cinemas para mostrar que o maior – e único - trunfo de sua trajetória são seus atores

Henrique Haddefinir
21.02.2019
19h14
Atualizada em
21.02.2019
19h39
Atualizada em 21.02.2019 às 19h39

Quando o Sai de Baixo estreou, em 1995, sua proposta era diferente do que a televisão estava acostumada a ver. As sitcoms americanas – com sua ingenuidade e moralismo – estavam em pleno auge e não demorou muito para que esse também se tornasse um gênero perseguido pelas produções da nossa teledramaturgia. Idealizado por Luis Gustavo e Daniel Filho, o programa era gravado num teatro, com uma plateia ao vivo, que mesmo buscando referências em A Família Trapo, tinha uma identidade moderna admirável, provocada principalmente pelo texto (às vezes muito provocativo) e pela química entre os atores, que depois de superarem a tentativa de respeitar as convenções teatrais, se entregaram a uma leveza e uma frequente quebra de todo o tipo de parede. Era um humor direto, físico, tolo, mas que no teatro encontrava sua identidade insuperável.

A decisão de levar o programa para o cinema veio depois de uma passagem intensa pelos especiais produzidos para o Canal Viva. Passados muitos anos fora do ar, quatro episódios foram montados para uma comemoração e suas exibições revelaram que a história da família Matias-Antibes ainda tinha coisas interessantes e divertidas a dizer. A trama desses episódios – como em todos os outros – pouco importava, de fato. A relação entre os atores e a plateia, tão próxima, tão quente, fazia com que tudo transcorresse com uma organicidade excitante, revitalizando o carinho que o público sempre teve com a atração. O filme, então, passava a ser uma incógnita justamente por ser incapaz de reproduzir a mesma comunhão.

Sai de Baixo – O Filme é apresentado como “uma chanchada escrita por Miguel Falabella”. Não foi a primeira vez que a palavra “chanchada” foi usada para atribuir características ao universo da série, mas é bastante provável que o abraço definitivo no gênero tenha sido uma forma de compensar a falta de seu grande “interlocutor”. Praticamente todos os elementos que construíram a reputação do Sai de Baixo estão ali, mas a falta da plateia parece aumentar em proporções questionáveis o descolamento do senso de realidade que não era necessário quando tudo acontecia na tela da televisão. O filme, infelizmente, parece uma saída ruim para manter vivo o espírito do programa. Talvez o programa, na TV, ainda passasse muitos anos sendo relevante. No cinema, ele parece constrangido e desnecessário.

O roteiro segue a mesma linha de construção dos episódios: a família precisa se dar bem, mas vai ter que enganar umas pessoas para isso. Pedras preciosas, malas de dinheiro, heranças... Quase sempre tudo ficava dentro desse nicho. Com as participações de Aracy Balabanian e Luis Gustavo sendo reduzidas, coube à família Antibes protagonizar a maior parte do enredo. Caco e Magda (Marisa Orth) precisam atravessar o país com malas carregadas de pedras preciosas, enquanto fogem de algum parente perdido que nunca havia sido mencionado antes. Tom Cavalcante retornou ao elenco para viver Ribamar e, em grande parte, a ostensiva necessidade de valorizar sua presença acaba sendo um dos grandes problemas do filme.

Cavalcante saiu do programa na quarta temporada e o humorístico permaneceu no ar por muito tempo depois disso. O trabalho do humorista com Ribamar se dividia entre ótimas tiradas (muitas vezes dispostas aleatoriamente) e dezenas de caracterizações. Para o universo teatral do programa, tudo se encaixava muito bem. Estranhamente, a transposição para o cinema, em muitos momentos, parece transfigurada, desconfortável. Tom usa de todos os seus trunfos... Ele vive uma das parentes de Ribamar com uma caracterização tosca, abusa de caretas a cada frame, se correlaciona com a chanchada pretensa do roteiro até o limite das expressões faciais, mas seu humor “descacetado” agride o andamento da história, não se correlaciona com os outros e atrapalha os momentos em o personagem se apoia mais em texto, justamente quando a interação com Caco e Magda flui de forma natural.

Falabella tem uma compreensão do que está vigente no mercado e na cultura pop; e usa isso em próprio benefício algumas vezes. Marisa Orth é – como sempre foi – a pilastra que segura tudo em pé. É impressionante ver como ela retorna para a Magda com uma segurança absurda. Já na TV, ela era como um coringa, aproveitável em 99% das cenas em que estivesse (mesmo que não falasse). Aqui, ela segura as pontas da pseudotrama que conduz o filme e ainda entrega com eficiência suas tiradas estapafúrdias. É muito admirável ver uma atriz que descobriu o que é ser um fenômeno e não passou o resto da carreira rejeitando esse privilégio. Marisa não tem medo de Magda.

Para quem acompanhou a série, o filme traz algumas questões interessantes. A Vavatur retorna depois de ter sido a empresa que guiou os acontecimentos do programa em seus dois primeiros anos. Caco e Magda tiveram um filho na 4ª temporada (depois que Orth engravidou) e durante algum tempo, ele foi um boneco de vinil controlado eletronicamente. Mais tarde, o elenco se livrou do boneco e o jovem Lucas Hornos viveu Caquinho por alguns meses, até que a justiça brasileira impediu a continuidade de sua participação, num surto de censura que atrapalhou também outras produções da Globo. Depois disso, o programa resolveu não trazer Caquinho de volta e os personagens agiam como se Magda nunca tivesse engravidado. Agora, no filme, é a primeira vez que Caquinho retorna, sendo vivido, então, por Rafael Canedo, que já tinha trabalho com Falabella em Brasil a Bordo.

O retorno de Ribamar e Caquinho segue a mesma métrica de seus desaparecimentos: não há explicação para terem sumido e nem voltado. O cargo de empregada da casa segue sendo problemático. É fato que Márcia Cabrita tinha conquistado seu lugar de membro vitalício do elenco, mas sua morte prematura em 2017 obrigou Falabella a reescrever tudo. Cláudia Jimenez (“mitológica” na primeira temporada da série) teria aceitado voltar, mas leu o roteiro e voltou atrás. Tudo precisou ser reescrito novamente, dessa vez incluindo também Cibalena (Cacau Protássio), que acabou ficando com a posição. Cláudia Rodrigues, que viveu a empregada nas duas últimas temporadas, não foi cogitada (a atriz sofre de uma severa esclerose múltipla).

As dificuldades da produção foram sentidas (Luis Gustavo também se ausentou por problemas de saúde). A prometida chanchada escrita por Miguel não tem só a ingenuidade e pobreza conceitual do gênero, mas um desequilíbrio considerável em todos os aspectos técnicos também. A montagem do filme é confusa, o som é desnivelado, há uma escuridão incoerente em algumas sequências e a icônica sala do apartamento de Vavá não foi reproduzida. Em dado momento Caco quebra a quarta parede – como fazia no teatro – e faz piada com as dificuldades financeiras da produção. Verdade ou não, é como se a chanchada B anunciada no roteiro fosse também invocada no resultado técnico final. Sai de Baixo – O Filme parece feito às pressas, sem aquele charmoso ponderamento social que já pingava na produção televisiva e que Falabella aperfeiçoou em outras produções como Toma Lá dá Cá e Pé na Cova.

Para os que conhecem o programa de TV e esperavam ansiosos para gravar episódios no videocassete, o filme tem seus momentos de resgate emocional. Para os outros, pode ser só uma comédia ruim, levado às telas com o romantismo de uma visita a um gênero que está, por razões legítimas, ultrapassado. As chanchadas são parte da nossa história, mas o que a série Sai de Baixo fez foi flertar com o passado para construir uma forma original. O filme, infelizmente, é uma piada perdida, daquelas em que a expectativa pode fazê-la parecer imperdível, mas que no meio esquece como contá-la.

Nota do Crítico
Regular