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Filmes
Crítica

Rosebush Pruning é tudo o que Saltburn gostaria de ser

Karim Aïnouz mostra para os gringos como se faz uma sátira psicossexual de verdade

Omelete
3 min de leitura
06.10.2026, às 19H00.
Cena de Rosebush Pruning (Reprodução)

Créditos da imagem: Cena de Rosebush Pruning (Reprodução)

Rosebush Pruning abre com uma daquelas tomadas genuinamente deslumbrantes, compostas como se fossem pinturas à óleo: o mar escaldante da Catalunha, desenhado como uma linha reta por baixo de um horizonte só um pouco mais claro do que ele. A majestade dessa vista dá a dica de como o cearense Karim Aïnouz (A Vida Invisível, Motel Destino) abordou esse seu segundo filme em língua inglesa – como um desafio estético, acima de qualquer outra coisa.

Da câmera de sua diretora de fotografia habitual, Hélène Louvart, Karim tira imagens de pura extravagância, a fim de casá-las com personagens que podem ser definidos da mesma forma: Ed (Callum Turner), Jack (Jamie Bell), Anna (Riley Keough) e Robert (Lukas Gage) são os quatro herdeiros de uma família ricaça, mas viveram a vida toda sob o jugo de uma dinâmica doméstica restrita e sexualmente carregada, que os deixou terminalmente incapazes de se desenvolver de forma saudável para a vida adulta. Quando Jack traz para casa uma nova namorada, Martha (Elle Fanning), esse castelo de cartas ameaça desabar.

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Não deve chocar ninguém saber que o roteiro do longa é assinado por Efthimis Filippou, o grego mais conhecido por sua parceria com Yorgos Lanthimos em Dente Canino, O Sacrifício do Cervo Sagrado, O Lagosta e Tipos de Gentileza. A disposição para chocar está aqui, assim como a afinidade por personagens que tentam escapar de uma teia de abusos só para acabarem ainda mais enredados nela. Delirando a partir de um clássico italiano (De Punhos Cerrados, de Marco Bellocchio, serve como inspiração distante para o texto), Filippou volta o seu olhar distorcido para os privilegiados – não só para condenar o seu materialismo e futilidade, mas também para se deliciar com eles.

E Aïnouz, eu arrisco dizer, entende até melhor esse impulso do que Lanthimos foi capaz de entender. O rigor do cineasta grego, que sublinhava as bizarrices dos textos de Filippou justamente pelo ascetismo de sua estética, é atirado pela janela em favor de um cinema de sensações, no qual o desejo sexual – para dar só um exemplo – não existe necessariamente como elemento de choque, mas como extensão natural de personagens que parecem muito fáceis de reconhecer. Patéticos, sem dúvida, mas quem de nós não é? Aïnouz abandona o olhar julgador para abraçar o da identificação dúbia.

Essa abordagem, naturalmente, também tira o melhor dos seus atores. Intérpretes nunca estão mais felizes do que sob a batuta de um diretor que ama seus personagens tanto quanto eles, e aqui cada performance se afina ao que Rosebush Pruning precisa dela: Turner está libidinoso e afetado como Ed, nunca mais bonito do que filmado por Aïnouz e Louvart; Bell é fúria contida em um pacote compacto; Gage e Keough flutuam pelo filme como criaturas feitas de seda, e não de carne e osso; como os patriarcas da família, Tracy Letts e Pamela Anderson brilham ao apelar para o grotesco.

Se passamos uma boa parte dessa crítica falando de Lanthimos, existe também outro autor recente com o qual Rosebush Pruning inevitavelmente vai ser comparado: Emerald Fennell. Mais especificamente, o seu hit inflamatório Saltburn (2023), que tem em comum com o filme de Aïnouz tanto a vontade de criticar o privilégio (até a página 2…) quanto o pendor ao escandaloso, além de certo volume de cenas de morte perto do final. Mas Rosebush é envolvente onde Saltburn aliena, impactante onde Saltburn é acadêmico, e abraça a sua moralidade duvidosa onde Saltburn apenas a utiliza como estratégia de marketing.

Pode ser que eu seja suspeito para falar, mas me parece que, em ambas as comparações através das quais Rosebush Pruning tem sido enxergado, não dá outra: é goleada do Brasil.

*Rosebush Pruning foi exibido no Festival do Rio 2026. O longa chega aos cinemas do circuito comercial de todo o país em 15 de outubro, com distribuição da MUBI em parceria com o Filmes da Estação.

Nota do Crítico

Rosebush Pruning

Duração: 97 min
Direção: Karim Aïnouz
Roteiro: Efthimis Filippou
Elenco: Tracy Letts, Jamie Bell, Pamela Anderson, Lukas Gage, Riley Keough, Elle Fanning, Elena Anaya, Callum Turner
Onde assistir:

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