Rose encontra, a duras penas, o brilho de uma fábula torta
Sandra Hüller e Caro Braun dão o tom de filme que poderia se perder na severidade
Créditos da imagem: Sandra Hüller em Rose (Reprodução)
Há algo de grotesco nos primeiros minutos de Rose, e especialmente na performance que Sandra Hüller entrega neles. A câmera de Markus Schleinzer – trabalhando com o seu diretor de fotografia habitual, Gerald Kerkletz – se demora no rosto da atriz, modificado por maquiagem que simula uma cicatriz de bala na bochecha direita. Com metade da face imóvel, e o restante do corpo enfiado em roupas propositalmente limitantes, ela encarna muito bem a Rose do letreiro de introdução do filme, que a define como uma “grande enganadora de povos”. Impávida, escorregadia, intimidadora.
A magia do filme, no entanto, está justamente em realizar uma virada com a personagem – e, com isso, expor como as histórias que sobrevivem ao tempo são desesperadamente incompletas, moldadas por visões que se transformam, indignas das pessoas que as viveram. Rose, vale dizer, não é inspirado em fatos, mas seus roteiristas (Schleinzer assina o texto ao lado de Alexander Brom) encontraram mais de 300 histórias parecidas durante uma pesquisa histórica que englobou toda a Europa no entorno do século XVII. O filme questiona, acima de tudo, se todas as protagonistas dessas histórias eram mesmo as vilãs que elas pintam.
Rose é uma mulher que se disfarça de homem porque, em suas próprias palavras, “existe mais liberdade nas calças”. Ela luta a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) como homem, e retorna para casa como homem – clamando a herança de um dos seus colegas de pelotão, e se estabelecendo com uma boa fazenda nas beiradas de um vilarejo tradicional. Logo ela se torna um membro confiado da comunidade, e um vizinho lhe oferece a mão de sua filha, Suzanna (Caro Braun), em casamento. As coisas não param de ficar mais complicadas a partir daí… mas Rose tampouco para de tentar entender melhor suas protagonistas.
E protagonistas no plural, sim. Apesar de levar o nome de Rose, o filme é tanto de Suzanna quanto dela (e tanto da excelente Caro Braun quanto de sua colega de elenco mais famosa). O texto de Schleinzer e Brom se debruça sobre esta jovem superficialmente devota, que esconde tristezas e alegrias profundas e surpreende com a sua capacidade de se adaptar às complexidades de uma relação pela qual não pediu, e na qual foi até mesmo abusada – mas que também pode lhe dar uma liberdade pela qual anseia. É muito no arco dela, inclusive, que Rose confia para fazer a sua grande virada, construindo uma anti-heroína plenamente compreendida no lugar da “enganadora de povos” da introdução.
Hüller muda junto com a companheira de cena, recorrendo às mesmas reservas de fúria e ressentimento que marcaram sua grande performance em Anatomia de uma Queda para escancarar uma personagem que era muito fechada. Registrada no preto e branco cada vez mais gentil do diretor de fotografia Kerkletz, ela desenha uma Joana D’Arc para as sensibilidades modernas: menos santa, e mais mulher tentando fazer o melhor que pode. E, assim como ela, o filme que começou com esse pezinho no grotesco vai parar em um lugar de sensibilidade surpreendente, numa fábula torta e trágica que – como todo outro texto do gênero – vale tanto pela lição de moral quanto pela jornada.
*Rose foi exibido no Festival do Rio 2026. O longa estreia em janeiro de 2027 nos cinemas brasileiros, com distribuição da O2 Play e da MUBI.
Rose (2026)
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