Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story by Martin Scorsese

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Crítica

Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story by Martin Scorsese

Martin Scorsese usa pseudo-documentário para representar perfeitamente a mente de Bob Dylan

Julia Sabbaga
13.06.2019
16h41

Martin Scorsese foi aclamado em 2005 por um documentário de Bob Dylan, No Direction Home, que retrata a ascensão à fama do músico nos anos 60 e a sua transição ao som elétrico. Quando foi divulgado que o diretor estava trabalhando em uma nova obra sobre Dylan, o esperado é que a diferença fosse a fase da carreira do compositor, agora em uma turnê no meio dos anos 70. Mas Rolling Thunder Revue se distingue por um motivo muito peculiar. A nova obra de Scorsese na Netflix está apenas disfarçada de um documentário, mas serve mais como uma representação da mente de Bob Dylan.

“Quando alguém está usando uma máscara, ele vai te falar a verdade. Se não está, é bem improvável”, diz Dylan quando questionado o motivo da máscara que usava durante a Rolling Thunder Revue, turnê de 1975, o suposto foco do longa. A frase talvez seja um aviso de Dylan à quem estiver assistindo o longa como se fosse um registro da verdade. O filme é descrito como o registro da turnê em que Dylan levava o álbum Desire à cidades e lugares menores dos EUA, mas os encontros de bastidores são na verdade retirados do longa Renaldo and Clara, dirigido por Dylan em 78, e os depoimentos, em grande parte, são encenações. Quem assiste Rolling Thunder Revue como um documentário pode achar que a turnê de Bob Dylan envolveu Jimmy Carter, um encontro com Sharon Stone, e um registro por um tal de cineasta chamado Stefan Van Dorp (um sujeito que nunca existiu). É difícil separar os relatos entre verdades e mentiras, mas esta é na realidade a genialidade por trás de Rolling Thunder Revue.

Sem compromissos com a verdade, o pseudo-documentário faz exatamente o contrário do que uma obra tradicional deste gênero sobre um artista faria. Ele leva a figura de Dylan ainda mais longe do público, elevando o mistério do compositor para uma outra esfera. Esse trabalho faz muito sentido com Dylan especificamente; seus seguidores são o tipo que pesquisa cada detalhe de sua história, e ainda, entendem que Rolling Thunder Revue é apenas mais um truque de sua personalidade. Há um senso de humor único por trás da construção, assim como um compromisso com os elementos essenciais que fazem de Dylan quem ele é: mistério, arte, política e lenda.

Ao contrário de todos os depoimentos e histórias contadas em Rolling Thunder Revue, as performances musicais de Dylan e sua banda formada por nomes como Joan Baez e Ramblin' Jack Elliott são mais do que reais, e seriam o suficiente para deixar qualquer fã feliz. Ao lado de uma história construída por Scorsese e Dylan que traz momentos mais que carismáticos com Allen Ginsberg, Joni Mitchell ou Ruben "Hurricane" Carter, o longa acaba como um material final tão envolvente e intrigante que tem seu valor além de um documentário comum. Ele caminha por verdades e mentiras construindo uma ideia que pode mistificar ainda mais a cabeça de Dylan, mas serve como uma representação de sua figura, um enigma zombeteiro, mágico e único.

Nota do Crítico
Ótimo