Ricos de Amor

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Filmes

Crítica

Ricos de Amor

Longo e incoerente, longa brasileiro da Netflix só se sustenta no carisma de elenco

Julia Sabbaga
30.04.2020
16h10

Há um fator refrescante em ver Ricos de Amor, comédia romântica cheia de brasilidades, no catálogo da Netflix. Existe Brasil por todo o canto do filme: em cidades pequenas e afastadas do Rio de Janeiro, comunidades da capital, em uma história embalada por Alok, funk, sertanejo e até com Mamonas Assassinas e festa do tomate. Todos estes elementos aliados à um elenco carismático poderiam entregar um filme que funcionaria bem e seria um orgulho de ver sendo levado a outras terras. Mas Ricos de Amor é tão fraco em seu roteiro e tão recheado de clichês que tudo isso se torna uma experiência frustrante. 

Dirigida por Bruno Garotti (que acertou muito bem em sua última empreitada, o adolescente Cinderela Pop), Ricos de Amor conta a tradicional história de um garoto rico que se apaixona por uma garota pé no chão, levando o rapaz em uma jornada de autoconhecimento quando ele finge ter origens humildes. Filho do dono de uma grande empresa de tomates, Teto (Danilo Mesquita) troca de identidades com o filho do caseiro, Igor (Jaffar Bambirra), no programa aprendiz da fábrica, entrando em um jogo de privilégios contra talento, ao mesmo tempo que tenta conquistar Paula (Giovanna Lancellotti). Toda a premissa aponta, pelo menos até metade do filme, a uma produção com noções básicas porém válidas, mas os valores se fragilizam em uma jornada inconsistente com conclusão estranha. 

Apesar de tentar explicitar desigualdades e privilégios, a jornada dos personagens de Ricos de Amor é fraca e recheada de clichês, que acabam relativizando qualquer aprendizado que os protagonistas pretensamente adquirem. O filme passa por situações óbvias de troca de identidade, como a famosa cena do jantar simultâneo e o troca-troca à la Uma Babá Quase Perfeita, e de vez em quando até rende risadas, principalmente quando as situações envolvem um desnorteado zelador interpretado por Marcos Oliveira. Mas na era de redes sociais, uma troca de identidade teria que ser muito bem amarrada, e não é só aí que o filme desliza. Por algum motivo, uma das altas funcionárias da empresa até acredita que o zelador - que se passa pelo Rei do Tomate - seja realmente seu CEO. Nada disso seria chamativo se o filme soubesse embalar seu roteiro com charme, mas isso fica a cargo apenas de seu elenco, que liderado pela química entre Mesquita e Lancellotti, segura as pontas na medida do possível. 

Um dos maiores problemas de Ricos de Amor é a sua pretensão em levar à frente uma das questões mais relevantes nos dias de hoje, o assédio. Colocando Paula como uma residente em um hospital lidando constantemente com o comportamento impróprio de seu chefe, o filme toma para si uma responsabilidade muito legítima. Mas enquanto Paula lida com isso, vemos Igor, no lugar de Teto, em uma posição semelhante. Na empresa, Igor é repetidamente abordado por Alana (Fernanda Paes Leme), sua superior e uma das responsáveis em decidir sua contratação. A situação é colocada de modo a criar comédia, mas se torna tão desconexa em um filme que busca retratar a mesma questão de forma diferente, que cria um desequilíbrio bizarro. Para completar a incoerência, a resolução do arco de Igor (que era virgem e se passava por outra pessoa, para completar) é, basicamente, a concretização de um assédio muito bem sucedido. 

Ricos de Amor tem um encerramento fácil demais, algo surpreendente para um filme demasiadamente longo. A conclusão não tem embasamento na jornada pela qual seus protagonistas passaram e a união do casal nem se concretiza pela redenção de Teto, o que torna toda experiência contestável. Como uma comédia romântica bem tradicional, é até esquisito ver que o filme não tenha seguido as regras até o fim, mas este desvio não o encaminha para a originalidade e sim para estranhamento. Depois de uma hora e 45 minutos, é difícil terminar Ricos de Amor sem questionar as ações de qualquer um dos seus personagens.

Nota do Crítico
Ruim