Resident Evil traz experiência perfeita de gameplay para o cinema em ótimo terror de sobrevivência
Austin Abrams brilha na história escrita e dirigida por Zach Cregger
Uma das maiores dificuldades em adaptar jogos de videogame para o cinema e para a TV é entregar ao espectador uma experiência parecida com aquela que ele vivencia durante horas e horas no controle. A linguagem visual é diferente, os personagens muitas vezes não se parecem com aqueles pelos quais nos afeiçoamos e a própria condução da história — que perde o fator de "escolher as ações do protagonista" — dificulta o acolhimento por parte dos fãs. Em 2026, Mortal Kombat 2 até chegou perto de balancear todos esses elementos, mas é o novo Resident Evil, dirigido por Zach Cregger (do aclamado A Hora do Mal), que entrega talvez o melhor resultado desde que Hollywood decidiu levar os games para as telonas.
Depois dos divertidos seis filmes dirigidos por Paul W.S. Anderson e estrelados por Milla Jovovich, e do fraquíssimo Bem-Vindo a Raccoon City, com Kaya Scodelario, Zach Cregger decide contar uma nova história. Sem os personagens conhecidos dos jogos, a trama reproduz o clima de um gameplay de Resident Evil muito melhor do que qualquer uma das adaptações anteriores.
A premissa é simples: Bryan (Austin Abrams) trabalha com transporte de órgãos e, ao chegar a um hospital para uma entrega, acaba recebendo outra encarrega que precisa chegar rapidamente a Raccoon City. No caminho, ele atropela uma mulher e, a partir daí, descobre que o mundo está prestes a mudar — e que tudo começou em seu destino final.
A simplicidade da trama é inversamente proporcional ao cuidado de Zach Cregger na condução narrativa. Logo de cara, vemos Bryan entrando no hospital e tudo à sua volta parece saído diretamente de um videogame: NPCs parados ou se movendo minimamente que, mesmo quando o protagonista para na frente deles, não respondem ou apenas desviam. Ele só consegue contato com alguém quando um médico reage e pega a bolsa com o órgão — o que logo se transforma em uma cutscene em que Bryan conversa com outra funcionária.
Essa emulação da linguagem dos jogos acompanha Resident Evil ao longo de todo o filme. Das cenas em que o carro avança pela estrada cheia de neve ao momento em que Bryan é parado por um policial, passando pelas sequências de tiro em primeira pessoa, a sensação de acompanhar um jogo é fantástica. Se existe uma exigência de fidelidade visual, ninguém fez nada parecido com o que Cregger alcança nos 90 minutos desta história de terror de sobrevivência. Talvez apenas a famosa cena em primeira pessoa de Doom: A Porta do Inferno (com The Rock e Karl Urban) e a recente luta entre Liu Kang e Kung Lao em MK2 cheguem perto dessa precisão na linguagem visual e dinâmica. De qualquer forma, eram momentos isolados em suas obras, enquanto Resident Evil consegue sustentar essa proposta em quase toda a sua narrativa.
Há momentos no terço final que brincam com os quick-time events — popularizados por Shenmue, God of War e pelo próprio Resident Evil — culminando em uma grande cutscene na qual o diretor coloca para fora toda a sua loucura visual. Nesse ponto, fica impossível negar as referências a O Enigma de Outro Mundo, de John Carpenter. Essas alusões, aliás, estão presentes na trama desde o início: na ambientação gélida, no uso de animais e, claro, no design e nos efeitos práticos das criaturas.
Quem merece todos os elogios é Austin Abrams, que, assim como Bryan, carrega o filme nas costas — na maior parte do tempo, sozinho em tela. O ator, que já havia se destacado em papéis na TV em Euphoria, Dash & Lily e This Is Us, faz de tudo: corre, atira, sofre, grita, faz piada... É um trabalho fantástico na construção de Bryan como um jogador inexperiente de Resident Evil. Acompanhamos o entregador entendendo como funciona a dinâmica dos infectados, aprendendo a usar as armas disponíveis, buscando suprimentos em gavetas ou debaixo de móveis e reagindo aos sustos, às criaturas e às situações bizarras exatamente como alguém que pegou o controle pela primeira vez.
Outro elemento que funciona muito bem na parceria entre Cregger e Abrams é o humor. Ao contrário dos sisudos filmes anteriores da franquia — ou do que os fãs mais "caxias" dos games possam acreditar ser o padrão para essas histórias —, as risadas acompanham diretamente o nervosismo. Melhor ainda: elas ajudam o filme a desarmar o espectador antes dos jumpscares e das cenas mais gráficas. O diretor já havia feito isso no ótimo Noites Brutais, mas aqui, ancorado pelo excelente trabalho de seu protagonista, alcança um resultado ainda superior.
Resident Evil é tão hilário quanto bizarro e tenso, o que representa um mérito gigantesco para Cregger como autor. É a assinatura que esteve presente em seus últimos trabalhos e que agora aparece ainda mais refinada nesta adaptação. É, acima de tudo, a prova de que adaptações cinematográficas podem, sim, respeitar a identidade do material original sem deixar de criar algo novo, brincar com gêneros e contar histórias sem depender do personagem favorito de um fandom. Os sustos estão lá. O gore está lá. Mas há também elementos inéditos, um ótimo protagonista e uma trama que não exige uma aula prévia da lore dos games.
Resident Evil, o filme, é sobre viver aquele mundo: sentir a tensão, tentar espiar o que está atrás da curva, temer quando a lanterna ilumina um corredor escuro e se espantar com o resultado grotesco dos experimentos da Umbrella Corporation. E se Resident Evil, o game, sempre foi sobre isso, a adaptação de Zach Cregger se consolida como um sucesso raro.
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