Relive

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Filmes

Crítica

Relive

Pastiche de drama policial e viagem no tempo funcionaria melhor como game

Marcelo Hessel
31.01.2019
14h27
Atualizada em
31.01.2019
15h13
Atualizada em 31.01.2019 às 15h13

Mesmo para os padrões da Blumhouse - a produtora de Purge e Sobrenatural especializada em thrillers de baixo orçamento - o suspense Relive deve ter saído baratíssimo. O filme escrito e dirigido por Jacob Estes (Quase um Segredo) é todo rodado em locações do Centro, dos bairros periféricos e dos morros de Los Angeles, com recursos mínimos. Para compensar a evidente carência de valores de produção, Estes aposta tudo numa mistura ousada de gêneros.

A trama coloca elementos estranhos ao drama policial - primeiro uma sugestão de thriller paranormal e depois de viagem no tempo - na história de um oficial, Jack, vivido por David Oyelowo, que descobre a família do seu irmão morta num ataque violento potencialmente relacionado a narcotráfico. Quando sua sobrinha morta lhe telefona, Jack acha que enlouqueceu. Esse é só o primeiro lance de um jogo de investigação envolvendo tio e sobrinha para tentar desfazer a tragédia.

Dá pra ficar puxando de memória os filmes que, combinados, resultariam em algo parecido com Relive: Dia de Treinamento com Source Code, Amnésia com A Casa do Lago. Estes não tem o arrojo e o controle de um Tony Scott para fazer seu próprio Déjà Vu (e Relive até que arrisca alguns momentos de timelines sobrepostas em cenas de perseguição e tiroteio) mas nas cenas de ação consegue suprir essa falta de talento com um vigor de câmera na mão que dá conta, pelo menos, da necessidade de tornar mais realista a violência inerente às situações do filme.

De resto, Relive tem bastante dificuldade de se encontrar dentro do pastiche que criou para si. Alguns momentos pensados para serem os mais emocionais, em que tio e sobrinha dividem o drama que estão vivendo, beiram o paródico (como quando o policial diz que a menina tem a possibilidade de "desmascar" um chiclete e mudar o passado). Oyelowo faz o que pode para dar consistência a um personagem sobrecarregado com o fardo de um arco dramático nonsense.

Se há algo que vale tirar aqui é enxergar no filme mais um exemplo de como o cinema de gênero em Hollywood emula a dinâmica dos jogos. A gamificação é latente em Relive, seja na forma como a câmera segue Oyelowo sempre preocupada em uma experiência de primeira e terceira pessoa, seja na orbitação de coadjuvantes que agem e falam mecanicamente como NPCs (especialmente Alfred Molina, desperdiçado como o chefe de polícia que faz perguntas banais e parece estar narrando o que vê). Estamos em um jogo em que o protagonista precisa fazer escolhas contra o tempo (sua própria sobrevivência depende de superar fases a cada pista descoberta), e nesse sentido sua sobrinha não faz muito mais do que o papel da companion que dá dicas sobre o que ver, para onde ir.

No fim, talvez Relive ofereça mais um conceito interessante como game (duas timelines paralelas que se afetam a cada jogada) do que exatamente uma experiência recompensadora para quem assiste.

Nota do Crítico
Regular