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Filmes
Crítica

Refém Por um Fio tem elenco e diretor em boa forma, mas é contido demais

Gus Van Sant e seus atores carregam a tocha de um texto exageradamente tímido

Omelete
3 min de leitura
20.08.2026, às 07H00.
Dacre Montgomery e Bill Skarsgard em Refém Por um Fio (Reprodução)

Créditos da imagem: Dacre Montgomery e Bill Skarsgard em Refém Por um Fio (Reprodução)

Na primeiríssima cena de Refém Por um Fio, vemos o protagonista Tony (Bill Skarsgard) dirigindo pela cidade de Indianápolis enquanto ouve o programa de rádio do DJ Fred Temple (Colman Domingo). A voz aveludada do apresentador oferece algumas palavras de sabedoria enquanto Tony, visivelmente estressado, se envolve com uma briga de trânsito e estaciona o carro na frente de uma financiadora de empréstimos. Temple introduz “Also Sprach Zarathustra”, hit instrumental do brasileiro Mike Deodato nos anos 1970, e a sessão de sopros faz sua entrada triunfal na trilha do filme… até que o diretor Gus Van Sant resolve cortar a sequência, e a canção, pela metade.

Talvez seja um sinal, deixado por Van Sant para o espectador atento: este é um filme que quase vai te fazer sentir algo transcendental – mas só quase. A sensação persiste durante as pouco mais de 1h40 de Refém Por um Fio, que adapta a história real de Tony e seu elaborado sequestro de Richard Hall (Dacre Montgomery), filho do dono da tal financiadora, que ele acreditava ter lhe trapaceado ao tom de alguns milhões de dólares durante uma negociação imobiliária. O caso mobilizou público, mídia e polícia no final dos anos 1970, quando os EUA ainda nem tinham vivido a desregulação ufanista da era Ronald Reagan.

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Fácil entender porque essa história parece tão vital hoje em dia, é claro. Na época do capitalismo tardio, da economia de start-up, da exposição de companhias fundadas em práticas exploratórias (e dos Luigi Mangione’s que elas criam), poucas imagens poderiam ser mais fortes do que a de um “cara normal” botando uma espingarda na nuca do herdeiro de uma empresa predatória e exigindo ser visto como herói, ao invés de criminoso. Crime é o que fizeram com ele. Ele só quer um pedido de desculpas e sua dignidade de volta.

Mas é justamente por ter essa urgência dentro de si que Refém Por um Fio se mostra uma obra tão frustrante. Talvez na ansiedade de não se queimar demais com o lado considerável do espectro político que ainda não abraça a violência como resolução para os (ou, pelo menos, resultado inevitável dos) males da contemporaneidade, o roteiro do estreante em longas-metragens Austin Kolodney evita se comprometer demais com a visão de Tony como um vingador do homem comum, e perde o seu poder catártico por isso.

Por trás das câmeras, Van Sant faz o que pode. O diretor insere tomadas gravadas em câmeras analógicas de TV no meio da encenação convencional e lança mão de músicas e figurinos (excelente trabalho de Peggy Schnitzer) para pintar um retrato vívido dos anos 1970 que tudo tem a ver com 2026. É ele quem escolhe terminar o filme com “The Revolution Will Not Be Televised”, é ele que dá energia às sequências onde o filme quase deixa entrever seu compromisso com um ponto de vista.

Também é da direção de Van Sant que surgem as performances comprometidas de Bill Skarsgard e Dacre Montgomery. Como Tony, o irmão caçula da família Skarsgard finalmente encontra um personagem que é histriônico o bastante para satisfazer todos os seus impulsos – nem sempre suas explosões verborrágicas convencem, mas é impossível dizer que elas não têm energia. No oposto do espectro, Montgomery contém toda a tensão de Richard na rigidez do corpo, enquanto se comunica com a câmera de maneira tão aberta que quase nos convencemos de que ele é só uma vítima nessa história.

Mas só quase, exatamente como Refém Por um Fio é quase um grande filme.

Nota do Crítico

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