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A Rede Social | Crítica

Enquanto o Facebook conecta pessoas, David Fincher isola Mark Zuckerberg em um filme sobre dissonâncias

Marcelo Hessel
02.12.2010
18h30
Atualizada em
21.09.2014
14h12
Atualizada em 21.09.2014 às 14h12

A Rede Social (The Social Network) vence o espectador logo na primeira cena por exaustão, quase por W.O., antes mesmo dos créditos iniciais. Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg) fala sem parar sobre os QIs dos gênio e as fraternidades mais exclusivas de Harvard numa velocidade que a sua namorada, à sua frente, não consegue acompanhar. O barulho no Thirsty Scholar Pub é alto, toca "Ball and Biscuit", e no momento em que Zuckerberg finalmente leva um fora da garota nós podemos ouvir o climático solo de guitarra da música do White Stripes ao fundo.

A trilha sonora executada como extensão do conturbado fluxo de consciência de Zuckerberg é uma das ferramentas de que o diretor David Fincher dispõe para manter o espectador conectado à sua verborrágica história oral da criação do Facebook. Isso fica claro no instante seguinte, a saída do pub, os créditos do filme, quando toca fora de cena a primeira faixa composta por Trent Reznor e Atticus Ross especialmente para a trilha, "Hand Covers Bruise" (é a mesma música que fica ao fundo no site oficial). Nela, acordes simples ao piano vêm acompanhados de um zumbido que nos deixa ao mesmo tempo apreensivos e anestesiados.

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Há um clima de urgência se instalando em A Rede Social, como se Mark Zuckerberg, depois do fora, corresse ao dormitório por predestinação, chamado a cumprir um papel milenar que lhe cabe. O nerd não é um macho alfa, de qualquer forma, e como o nosso narrador tem à mão a Internet, o seu fluxo de consciência logo vira uma série de posts rancorosos no velho Livejournal. Para se vingar das mulheres, Zuckerberg hackeia do seu quarto em Harvard algumas redes de faculdades e cria um site que ranqueia fotos de universitárias. Começa a germinar aí a ideia da rede social que o tornou bilionário.

O Zuckerberg real afirma que nunca houve a tal namorada, mas para o filme isso não importa. Como uma advogada diz mais adiante, "todo mito de criação precisa de um diabo", e o gênio overachiever de Harvard não é muito diferente de outros magnatas da comunicação que acabam virando arquétipos de tragédia no cinema - homens que ligam pessoas e terminam sós, que lidam com as palavras mas não conseguem se expressar - como o próprio Charles Foster, o Cidadão Kane.

A Rede Social, então, funciona em dois níveis. O primeiro é o mundo como o narrador Zuckerberg vê, um borrão cor de musgo cheio de eventos desinteressantes. O próprio Fincher - sempre um niilista - em cenas como a da regata, onde o protagonista não está presente, reproduz essa visão (a mecanicidade eterna dos gêmeos remadores é o contraponto ideal aos arroubos de articulação de Zuckerberg). O segundo nível, em oposição, é o mundo de fato - que em seu movimento inercial não se deixa alterar pelos atos de Zuckerberg, ao contrário do que o nosso anti-herói, na sua mania de grandeza, gosta de pensar.

Perguntas como "tenho sua atenção?" e "você está ouvindo o que estou dizendo?" surgem um par de vezes. No fim das contas, embora o Facebook trate de conectividade, David Fincher está fazendo um filme sobre a dissonância. É como o ruído que persiste na trilha de Reznor, literal e metaforicamente.

Nesse sentido, talvez A Rede Social esteja tão próximo de Zodíaco, o melhor filme do diretor, quanto de Cidadão Kane. A impossibilidade de redenção e a estrutura temporal baseada num longo flashback são as mesmas do clássico de 1941, e Zuckerberg tem seu Rosebud pessoal, evidentemente. Já a sensação de impotência é comparável à de Zodíaco, um filme com personagens que também projetam no mundo relações irreais de causa e efeito, para preencher seus vazios. No suspense, o jornalista e o cartunista procuram pistas de um assassino que talvez não exista mais. Em A Rede Social, Zuckerberg, desde aquela primeira cena no bar, enxerga segundas intenções em tudo.

O Mark Zuckerberg da realidade tem todo o direito de reclamar do seu retrato ficcional, que afinal é simplificado para se encaixar num certo perfil, num certo arco. Mas o Zuckerberg do filme, embora pareça, não é uma vítima das circunstâncias ou do seu temperamento. É, sim, vítima de seu tempo.

Assista a cinco cenas de A Rede Social
A Rede Social | Horários e cinemas

A Rede Social
The Social Network
A Rede Social
The Social Network

Ano: 2010

País: EUA

Classificação: 14 anos

Duração: 120 min

Direção: David Fincher

Elenco: Jesse Eisenberg, Andrew Garfield, Justin Timberlake, Rooney Mara, Bryan Barter, Dustin Fitzsimons, Armie Hammer, Joseph Mazzello, Patrick Mapel, Max Minghella, Toby Meuli, Malese Jow, Brenda Song, Dakota Johnson, Trevor Wright, Adina Porter, Rashida Jones, Felisha Terrell, Peter Holden

Nota do Crítico
Ótimo

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