Ray Gunn é (mais uma) aula de criação por Brad Bird, que peca apenas por amar demais
Com ótimo elenco, animação marca retorno do diretor ao cinema e paixão pela história acaba sofrendo com excessos
Créditos da imagem: Netflix
Quase 10 anos depois de seu último filme, a continuação de Os Incríveis em 2018, Brad Bird retorna com um projeto pelo qual ele se diz apaixonado há tempos. Ray Gunn (2026), é, digamos assim, peculiar. Uma história noir retrofuturista com uma trama voltada para o público mais adulto. Se olharmos para o estado do cinema atual, é uma fórmula pouco atrativa para vender ingressos. Bird então encontrou um berço na Skydance Animation, comandado por seu antigo companheiro de Pixar, John Lasseter, e na Netflix.
A história acompanha Raymond Gunn (Sam Rockwell), um investigador particular que se vê envolvido numa conspiração cujo centro é a diva pop Venus Nova (Scarlett Johansson). Após o sucesso de seus trabalhos anteriores, Venus se vê escândalos, ameaças de morte, mafiosos e, claro, um assassinato. Como uma boa femme fatale, ela tem seus segredos e um olhar sedutor que deixa Ray abalado. Completando o mundo de Ray Gunn estão imigrantes alienígenas que agora moram na Terra, incluindo o parceiro do detetive, Olhívio (Tom Waits), e o mafioso Xavier (Matt Berry), que coloca o filme também na seara da ficção-científica.
Acostumado com a criação de mundos fantásticos, Brad Bird apresenta o universo com parcimônia. A grande cidade, com arranha-céus de 600 andares, por exemplo, parece diretamente saída de Coruscant ou O Quinto Elemento. Na verdade, é praticamente impossível não lembrar do filme de Luc Besson com as perseguições de carros voadores com estilo retrô e a mistura de personagens excêntricos, humanos e aliens. Da mesma forma, Bird parece beber de várias outras fontes da ficção-científica, como os anúncios publicitários que tomam conta da metrópole em Blade Runner e os anúncios pela cidade, ou as tecnologias de espionagem como robôs espiões vindas de Minority Report. Esses elementos do porvir são bem misturados com os do passado: Rocketeer e seus jatos propulsors e a maior inspiração para a história: os clássicos do cinema noir, especialmente O Falcão Maltês.
Nisso tudo, Bird mostra mais uma vez seu talento para criar ação. Seja nos momentos menores como uma cena de dança ou uma briga de rua, ou nas grandes sequências de perseguições aéreas, tiroteios em corredores e, em especial, um espetacular momento utilizando um elevador com propulsores; o diretor repete a fluidez de suas obras anteriores. Ver Ray Gunn é lembrar de Remy cozinhando a sopa em Ratatouille ou do balé de Ethan Hunt pendurado no Burj Khalifa em Missão: Impossível 4. Por mais que a animação de Ray Gunn não seja a mais moderna ou detalhada, comparada a outros títulos do gênero hoje em dia, Bird entrega um ar clássico que combina com o gênero escolhido, quase como se emulasse uma versão antiga das animações que foca em movimentos, direção de arte e personalidade – uma espécie de “preto e branco” do formato.
O problema de Ray Gunn está nos excessos do roteiro. A paixão do diretor por sua própria obra acaba prejudicando o andamento da história em certos momentos. A história da investigação tem que lidar com Venus, sua ligação com a máfia, uma grande corporação de mídia, sensacionalismo e por aí vai. Nesse meio tempo, ainda há a presença dos alienígenas na trama e uma discussão sobre segregação que não ganha a força necessária para o terço final da trama. Falta ao filme a concisão de outras histórias de Bird, que encontravam na simplicidade o genial. Ratatouille com seu “todo mundo pode cozinhar" abre espaço para a ideia do rato como melhor chef do mundo sem tirar o espaço para os temas da paternidade de Linguine, por exemplo.
O espetacular elenco de vozes em inglês ajuda o filme a não deixar que esse emaranhado de ideias fique mais cansativo. Sam Rockwell entrega o charme e a comédia perfeita para dar vida ao protagonista e Johansson volta a encantar com sua voz, coisa que já tinha feito em Ela, incluindo aqui também os momentos de cantoria de Venus. Tom Waits, Bobby Cannavale, Alan Tudyk, Michelle Rodriguez e o próprio Bird são alguns dos nomes que completam essa trupe diversa e divertida.
Ray Gunn é mais uma aula de Brad Bird como um dos melhores criadores de histórias que o cinema teve nas últimas décadas. Um filme divertido, autoral e apaixonado por esse mundo como muitas vezes falta ao cinemão hollywoodiano. O problema é que por várias vezes em Ray Gunn, a paixão dá lugar ao excesso e algumas revisões no roteiro não teriam feito mal. Ainda assim, não é todo dia que temos o privilégio de ver Bird em ação ou uma ação como a assinatura de Bird. Então, no fim, vale aproveitar esses momentos.
Ray Gunn está em exibição na Mostra SP. O filme terá um lançamento limitado em 3 de dezembro nos cinemas e depois vai para a Netflix em 18 de dezembro de 2026.
Ray Gunn
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