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Crítica

Rampage: Destruição Total | Crítica

Filme é fiel ao game e ignora noções narrativas em favor da atração visual

Marcelo Hessel
11.04.2018
17h07

À medida em que Hollywood retorna a um senso de cinema de gênero orientado por atrações e não por pretensões de mitologia (as trilogias parecem tão coisa do passado), filmes descompromissados como Rampage: Destruição Total se tornam mais frequentes. Uma premissa mirabolante mas convincente; um perigo iminente; personagens-heróis minimamente consistentes que precisam se convencer de seu destino manifesto - a fórmula é velha mas se renova com facilidade.

A adaptação do game estrelada por Dwayne Johnson adere logo de cara à noção de que esse tipo de filme precisa, antes de mais nada, da sensatez de não perder tempo com o desnecessário. E em Rampage tudo é bastante imediato: um acidente na órbita da Terra faz caírem três caixas com um mutagênico que cria nos EUA três animais gigantes, que são atraídos até Chicago por um sinal, e cabe a The Rock impedir uma destruição como aquela que se vê no jogo (elemento que o filme segue com um ou outro easter egg para o fã mais atento).

O diretor Brad Peyton - que trabalhou antes com Johnson em Viagem 2 e no filme-catástrofe San Andreas, cujo parentesco com Rampage é muito claro como fator de venda do novo longa - não tem muito tino narrativo, porém, para diferenciar aquilo que pede imediatismo daquilo que é simplesmente funcional ou trivial. Então o que se vê em Rampage é uma construção de arcos de personagem bastante precária, acompanhada de viradas de roteiro entregues ao público com uma exposição bastante burocrática.

Rampage busca o imediato e o descomplicado, sim, mas isso acaba se traduzindo no filme em uma aborrecida história com meia-dúzia de personagens explicadores de trama: o melhor amigo do protagonista está lá só para lembrá-lo do arco de superação de trauma, por exemplo, e sai de cena minutos depois de concluir essa função. Da mesma forma, é muito oportuno que os irmãos vilões tenham imagens via satélite de tudo o que ocorre no filme, porque afinal na cabeça dos realizadores não basta narrar eventos, é preciso que dois personagens expliquem entre si (e para nós) aquilo que acabamos de ver.

É com alguma satisfação, portanto, que se assiste aos momentos de destruição em Rampage, porque fica logo evidente que todo esforço criativo de Peyton foi dedicado exclusivamente em conceber, desenhar e renderizar as capturas de movimento e o CGI do destruction porn, que se desenrola sem renegar o caráter ridículo que lhe é natural. (O ridículo aparece antes na cafonice com que Johnson e Naomie Harris discutem seus dramas, mas como em tudo neste filme a cena passa suficientemente rápido para que não incomode tanto.)

É o ridículo, no fim, o único elemento de Rampage que poderia se dizer autêntico ou particular. Graças ao ridículo, inclusive, o grande momento do filme, envolvendo a destruição de um dos cartões-postais de Chicago (uma cena que recorre à iconografia do 11 de Setembro, tomadas as devidas proporções, de forma parecida com que Godzilla recorria ao imaginário da Segunda Guerra e do perigo nuclear para ganhar força), transcorre sem que essa emulação do WTC se fixe e se transforme num mal estar para o espectador. Rampage existe em função dessa cena. A questão é tolerar o resto até lá.

Nota do Crítico
Regular