Rambo - Até o Fim

Créditos da imagem: Rambo - Até o Fim/Balboa Productions/Reprodução

Filmes

Crítica

Rambo - Até o Fim

De volta pra casa, franquia coloca sua raiva a serviço do reacionarismo

Marcelo Hessel
18.09.2019
18h55
Atualizada em
19.09.2019
13h44
Atualizada em 19.09.2019 às 13h44

Ainda não entendi por que o Twitter de uma hora para a outra passou a discutir o caráter de Capitu, mas vem bem a calhar a revisão de Dom Casmurro nesses tempos de regressão e polarização para lembrar como o espectador tende a comprar o ponto de vista de personagens sem atentar para a natureza comprometida do narrador em primeira pessoa. O que Bentinho e John Rambo têm em comum além do seu julgamento enviesado? Acima de tudo, um sentimento compartilhado de ressentimento.

Rambo tem muitos motivos para se ressentir e inclusive deixa isso claro ao longo da sua cinessérie, ventilando para o Coronel Trautman a ingratidão dos seus compatriotas. Rambo só entende a linguagem da violência porque assim foi criado, é o fardo que carrega, e para um personagem que se pinta como o bruto solitário até que Rambo fala bastante sobre suas dores ao longo desses cinco filmes. Nesse ponto é muito parecido com Rocky Balboa nos seus monólogos-desabafos e obviamente Sylvester Stallone entende seus dois heróis-símbolos como tipos sensíveis incompreendidos, em busca de empatia e reparação.

Esse é o ponto de vista de John Rambo. Condenado a viver nas encruzilhadas de um mundo cheio de encontros violentos, em Rambo - Até o Fim ele não seria outro senão o ex-boina verde aposentado no rancho da família no Arizona, mais próximo dos cavalos do que das pessoas, que enxerga o perigo em tudo que cerca a estabilidade frágil desse mundo. Para Rambo, o Outro é sempre o Mal. Acontece que estamos em 2019 e, apesar da insistência de muita gente em acusar fantasmas que não existem, a Guerra Fria há tempos deu lugar a uma ordem das coisas menos maniqueísta. Acontece também que, embora seja o personagem principal, Rambo não é o narrador em primeira pessoa de seu filme.

Parece ridículo fazer essas ressalvas, mas isso se vê necessário quando Até o Fim confunde de forma abismal o mundo da fronteira México-EUA como John Rambo o vê, e esse mundo como ele (em alguma medida) realmente é. Não estamos mais no terreno da dicotomia geopolítica do "ocidental civilizado" contra o "oriental selvagem" (alicerce da série entre Rambo II e Rambo IV), que por grosseira que fosse até fazia algum sentido dentro do imaginário americano. A partir do momento em que escolhe no quinto filme uma arena doméstica (e que já não tem o parentesco temático mais remoto com aquela do primeiro filme), coloca o militar americano contra os mexicanos - retratados como os "traficantes, ladrões e estupradores" de Trump - e se nega a reconhecer as áreas cinzas dessa relação, insistindo numa dinâmica que historicamente não tem mais validação, Até o Fim beira o insustentável.

O filme abre com uma tempestade que provoca enchentes numa montanha do Arizona. É a ordem natural do mundo; nos EUA de Até o Fim, onde tudo parece em harmonia, a violência só eclode como um dado primal, consumado, tributo que os homens pagam pela ousadia de ocupar o Oeste selvagem (não por acaso os floreios de câmera mais rebuscados de Até o Fim são na cena em que Rambo treina seu cavalo). A violência como uma perversão dos homens está no estrangeiro, e o filme não tem meios-termos: a fotografia nas cenas do México usa aquele filtro alaranjado que torna as superfícies imundas, no instante que Rambo atravessa a fronteira o filtro já está lá, antecipando os julgamentos.

De Rambo como personagem não se esperaria outra coisa além do pensamento simplista, e Stallone o interpreta no limite do caricato, sempre de punhos cerrados. O filme não oferece pra ele muito mais nesse fecho de arco; informações de cânone sobre a família do soldado, como a violência do pai que acabou expulsando John Rambo de casa na adolescência, são negligenciados em Até o Fim em nome desse pensamento polarizado. O fã que, por anos, esperou o retorno de Rambo aos EUA como um derradeiro acerto de contas com o passado tende a se decepcionar. Rambo diz que quando jovem "sempre quis ser soldado" e é só; seu pai aparece numa lápide e nas memórias vagas de Maria (Adriana Barraza), que lembra de vê-lo na cadeira de balanço na varanda, “mais pensativo que comunicativo”. Se há alguma sugestão de violência doméstica, ela fica, com muita boa vontade, no terreno do conotativo.

Resta o Rambo do arco-e-flecha e do facão, canal para a ultraviolência que parece ser o único nicho de mercado em que a franquia ainda se enquadra. Na concorrência, os filmes de justiciamento e violência como Desejo de Matar entendem hoje que só a via da farsa ou do cartunesco pode oxigenar esse subgênero no século 21, sob o risco de cair no ridículo do registro datado. Rambo - Até o Fim não apenas assume esse risco: o filme o faz como se não tivesse sequer outra escolha. O único momento de alguma luz no quesito humor depreciativo é a cena em que Rambo mostra sua caverna de memorabília da franquia e reconhece que isso faz dele um velho maluco.

Ironicamente, nessa confusão que o filme faz com as perspectivas, talvez tudo funcionasse melhor como livro e não como filme, porque enquanto eventual narrador em primeira pessoa Rambo teria ao menos a autoridade do seu relato. Na tela, a constatação dessa mistura patológica entre o personagem e o narrador só serve para ridicularizar o Rambo "velho maluco", e acaba que sua inteligência limitada contamina também suas coadjuvantes, criadas sem consistência (a repórter que investiga mas “quer deixar por isso mesmo”, a imigrante que pergunta por que a polícia americana não pode ir ao México).

No fim, fica a apologia à violência, esvaziada de um sentido que não seja a nostalgia. Realmente é mais simples ter a segurança de ver o mundo como era "antes". O filme implora isso a si mesmo, devolver-se a um mundo menos complicado. Num tempo em que a maior ameaça à segurança nacional vem de dentro dos EUA, voltar a fazer do Outro o vilão tem por uma hora e meia o efeito placebo de restaurar a paz no coração da América, ao custo da alienação completa. O negacionismo finalmente chegou ao cinemão, e passado o imediato ridículo das situações que o filme propõe, o que fica de Rambo - Até o Fim é a melancolia do isolamento.

Nota do Crítico
Regular