Rosamund Pike como Marie Curie em Radioactive

Créditos da imagem: Radioactive/Divulgação

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Crítica

Radioactive

Cinebiografia de Marie Curie dirigida pela criadora de Persépolis transforma cientista em heroína e ganha vida pela atuação de Rosamund Pike

Natália Bridi
07.09.2019
22h51

Única pessoa a vencer o Prêmio Nobel em dois campos diferentes - física e química - Marie Curie é um dos grandes nomes da história da ciência. A cientista, porém, foi retratada poucas vezes no cinema, sendo interpretada por Greer Garson, em 1943, e por Isabelle Huppert, em 1997. Apesar de ter sua importância reconhecida, sua figura não era simpática como a de Albert Einstein, por exemplo, para que ela figurasse no imaginário popular. Radioactive, baseado na HQ de Lauren Redniss, muda essa perspectiva, dando à vida de Marie e de seu marido, Pierre Curie, a embalagem necessária para ser assimilada por uma nova geração.

Marjane Satrapi, criadora e co-diretora de Persépolis, faz sua estreia no comando de um longa-metragem live-action, mas sem deixar de lado a sua experiência com as artes gráficas. Anthony Dod Mantle, diretor de fotografia conhecido por filmes como 127 Horas, Dredd e Quem Quer ser um Milionário?, adiciona outra camada ao apelo visual do filme, distanciando Radioactive da estética tradicional das cinebiografias.

O roteiro de Jack Thorne (Extraordinário), por outro lado, segue a cartilha. Cada cena, cada diálogo, trabalha em torno da ideia do que o filme precisa representar: Marie Curie era uma cientista genial desacreditada apenas por seu gênero, com um temperamento difícil, que amava profundamente seu parceiro e marido, era irônica, desinibida, destemida e ávida defensora do conhecimento. O que dá vida a todos esses conceitos sobre Marie Curie é Rosamund Pike. Para cada fala afetada, ela adiciona personalidade, tornando crível e carismática a sua interpretação. A química com Sam Riley, que encarna Pierre Curie, também contribui para que o romance seja cativante, ainda que claramente idealizado.

A estrutura do roteiro, que parte dos momentos finais da cientista, mantém a essência de uma HQ, entrecortando a narrativa com as consequências do trabalho dos Curie. Da teoria da radioatividade veio a radioterapia contra o câncer, mas também a bomba atômica e o acidente em Chernobyl. São momentos que trazem o conceito de uma descoberta científica feita em 1898 para termos palpáveis para o público geral, o que reforça o toque pop que Radioactive dá para a história de Marie Curie.

Da relação com a filha, a também vencedora do Nobel Irène (Anya Taylor-Joy), o filme estende o legado da cientista, expondo seu caráter quase didático: um mundo com mais mulheres cientistas se faz de exemplo. Ver as duas, mãe e filha, indo aos campos de batalha da Primeira Guerra Mundial com máquinas de Raio-X para evitar amputações desnecessárias, equivale a Mulher-Maravilha saindo das trincheiras para cruzar a Terra de Ninguém. Aqui, Marie Curie é a heroína e conhecer a sua história é um prazer, como a aventura de um gibi. A maior preocupação, parece, não é revelar a mulher por trás do mito, mas reforçá-lo. Já era hora.

Nota do Crítico
Ótimo