Quo Vadis, Aida?, filme indicado ao Oscar 2021

Créditos da imagem: Quo Vadis, Aida?/Divulgação

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Crítica

Crítica: Quo Vadis, Aida? mostra o fim da esperança nas mãos da burocracia

Indicado ao Oscar é impiedoso ao questionar fracasso da ONU em massacre na Bósnia

Arthur Eloi
23.04.2021
18h50

Quando Quo Vadis, Aida?, filme de Jasmila Zbanic, abre focado na tradutora titular tentando mediar uma negociação entre um político bósnio e um militar estadunidense, não é preciso entender as palavras ditas para saber que muito está em jogo. Entre suor e cigarros, o político se exalta, perde a paciência e praticamente implora por ajuda, dependendo da tradução da interpretação de Aida (Jasna Djuricic) para suavizar todo esse desespero. O longa, que narra as últimas horas do massacre de Srebrenica, desde o início estabelece essas figuras tão distintas: o medo desolador das futuras vítimas, e a impessoalidade daqueles que dizem oferecer ajuda.

Indicado na categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar 2021, o filme mergulha a fundo num dos capítulos mais sangrentos e injustos da guerra civil iugoslava, conflito entre nações do Leste Europeu, que ocorreu de 1991 até 2001. Na ocasião, a Bósnia e Herzegovina sofria de impiedosos ataques da Sérvia, cujas tropas e milícias tocavam um genocídio étnico após a Bósnia proclamar independência da antiga Iugoslávia em 1992, ato que foi reconhecido pelas Nações Unidas. O longa é ambientado em 1995, na pequena cidade de Srebrenica, que está prestes a ser invadida pelas tropas sérvias.

Mesmo tratando de um período complexo, o filme não pede conhecimento prévio dos eventos, já que se apega ao drama humano da desesperança e da luta mesmo quando tudo está perdido. Aida atua como tradutora em um campo de refugiados da ONU, sempre correndo de um lado para o outro na tentativa de ajudar soldados e médicos a lidar com os feridos e desolados pela guerra. A situação fica mais delicada quando a cidade é tomada e os cidadãos são forçados a deixar seus lares, e o lugar rapidamente se vê cercado por famílias, crianças e idosos buscando abrigo. Para Aida, tudo fica ainda pior quando descobre que seu marido e seus filhos estão entre a multidão.

Quo Vadis, Aida? não dá um minuto de descanso ao espectador. De sua intensa cena de abertura até seu trágico final, de partir o coração, há pouco espaço para respirar. Esse ritmo frenético aumenta o impacto de seu argumento. Aida corre de um lado para o outro, em busca de sua família e de ajudar os outros, mas as tropas estrangeiras parecem não fazer nada o dia todo. É deliberada a escolha de ter a suposta ajuda humanitária como um grupo infantilizado, de soldados incapazes ou então excessivamente burocráticos. Há algo verdadeiramente errado quando em diversos momentos o exército sérvio, capaz de cometer atrocidades imperdoáveis, se mostra mais humano do que os ditos aliados.

Esse descaso gradualmente vira frieza. De início, a ONU garante que a cidade está protegida. Aos poucos, por conta de acordos mal firmados e má vontade, a organização se torna mais e mais permissiva às investidas dos sérvios, tendo ligação direta no ato que, eventualmente, tomaria a vida de quase 9 mil mulçumanos bósnios. Saber o desfecho sangrento do acontecimento histórico não estraga a experiência. Muito pelo contrário, aumenta a tensão, a impaciência e a revolta no espectador, tanto pelo fracasso da intervenção humanitária, ou então pela constante barreira de linguagem que dificulta a comunicação entre todos.

Lançado no 25º aniversário do massacre, Quo Vadis, Aida? serve para lembrar que algumas cicatrizes nunca vão sarar, e também como protesto. Nascida a partir de um esforço coletivo de nove países europeus, a produção é uma enorme crítica à organização que demorou quase uma década para reconhecer sua responsabilidade na tragédia. É um filme construído em cima de um trauma geracional, de crimes que passam impunes e arruinam vidas, famílias e cidades para sempre. Ao mesmo tempo, não há um pingo de ódio na direção frenética ou na escrita impiedosa de Jasmila Zbanic. Apenas indignação, pela falta de humanidade, e pela falta de reparação histórica.

Quo Vadis, Aida?
Quo Vadis, Aida?
Quo Vadis, Aida?
Quo Vadis, Aida?

Ano: 2020

País: Bósnia e Herzegovina

Classificação: 16 anos

Duração: 101 min

Direção: Jasmila Zbanic

Roteiro: Jasmila Zbanic

Elenco: Izudin Bajrovic, Jasna Djuricic, Boris Ler

Nota do Crítico
Excelente!

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