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Crítica

Quinze Dias prospera na falta de vergonha de ser o que é

Leve e meio cringe, rom-com gay brasileira confia na sua especificidade para ganhar impacto

Omelete
3 min de leitura
17.06.2026, às 19H30.
Cena de Quinze Dias (Reprodução)

Créditos da imagem: Cena de Quinze Dias (Reprodução)

A narrativa adolescente LGBTQIAPN+ vive um dilema que é único dela dentro do audiovisual contemporâneo. Desde que títulos como Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014), Com Amor, Simon (2018) e Heartstopper (2022-) mostraram, ainda que de forma bissexta, que há fome de histórias leves e jovens sobre relacionamentos queer no Brasil e no mundo, a crítica e a própria comunidade julgam esses títulos em cima de áxis conflitantes. 

Acima de tudo, eles existem numa escala de respeitabilidade vs. representatividade, em que se critica esses filmes tanto por incluir sexualidade demais (porque afasta o público heterossexual cujo endosso ajudaria a combater a homofobia), quanto por incluir sexualidade de menos (porque apaga um aspecto crucial da vivência dos personagens queer). E a vontade de se encaixar, ser incluído nas tradições do mainstream, transborda para a relação do público com os chavões de gênero abraçados pelo filme em questão.

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O quanto queremos, de fato, uma rom-com gay nos moldes estéreis e fantasiosos em que se fazem rom-com héteros? Quinze Dias responde a essa pergunta com um entusiasmo que desarma críticas fáceis. Adaptando o livro de Vítor Martins, que se tornou marco no seu mercado (o campo editorial superou esse tal dilema há muito tempo, e o fez investindo em todos os nichos que fazem dinheiro), o diretor Daniel Lieff (Tremembé) faz uma comédia romântica jovem que não tem vergonha nenhuma de sê-lo.

Coloque nessa conta a elaboração visual de sitcom americana, com a diretora de arte Nathalia Siqueira (Últimas Férias) abarrotando o apartamento de Felipe (Miguel Lallo) e Rita (Débora Falabella) com mantinhas e itens decorativos coloridos, num panorama que é mais The Middle e Modern Family do que Pedro Almodóvar. Nesta caixinha de fósforos artificial, o diretor de fotografia Fernando Young (Fim) registra tudo com um verniz de produção sofisticada, fazendo de tudo para eliminar as arestas mais difíceis da história que o filme tem para contar.

Por falar nela: em Quinze Dias, Felipe é um garoto gay e acima do peso, que sofre bullying na escola e prefere se isolar do mundo em suas séries e filmes do que lidar com a possibilidade de uma rejeição amorosa. Acontece que a mãe solteira do rapaz, Rita, topa hospedar Caio (Diego Lira), o filho da vizinha, durante duas semanas em casa enquanto os pais do garoto viajam – bem no meio das férias escolares. Extrovertido, atlético e aparentemente hétero, Caio é o oposto de Felipe, o que abre caminho para um bom e velho enemies-to-lovers adolescente.

O roteiro, assinado por Ray Tavares e Vítor Brandt (De Volta aos 15), se delicia nas situações típicas dessa premissa, frisando o conflito entre os personagens enquanto deixa o peso do tempo aproximá-los apesar das diferenças. É uma receita antiga e resiliente porque funciona, e os dois roteiristas (assim como Martins no livro original, claro) sabem disso, aproveitando o conforto que ela proporciona para trabalhar com mais afinco nas emoções únicas que o aspecto queer dessa história é capaz de levantar.

Quinze Dias tem um final genuinamente bem resolvido e impactante, nesse sentido dramático. Ademais, se Miguel Lallo carrega o seu Felipe na base do carisma, Diego Lira empresta nuances genuinamente torturadas para Caio, em olhares de soslaio e pausas de fala providenciais – o que é importante para transformá-lo em um par romântico envolvente, e não um galãzinho vazio. É um filme entregue à fantasia do seu gênero e até de outros, em divertidas cenas pontuais que emulam o estilo dos film noir e dos musicais.

Por isso mesmo, é difícil julgá-lo na régua impossível onde outras investidas desse cinema jovem LGBTQIAPN+ são colocadas, com adjetivos como “inofensivo” ou “higienizado”. Afinal, não tem graça criticar uma obra por aquilo que ela mesma assume com tanto desembaraço.

*Quinze Dias estreia em 18 de junho nos cinemas brasileiros.

Nota do Crítico

Quinze Dias

Duração: 100 min
Direção: Daniel Lieff
Roteiro: Vitor Brandt, Ray Tavares
Elenco: Diego Lira, Débora Falabella, Silvio Guindane, Miguel Lallo
Onde assistir:

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