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Crítica

Queens of the Dead defende a narrativa zumbi com ironia e verdade

Tina Romero homenageia o legado do pai em paródia emocional

Omelete
4 min de leitura
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05.03.2026, às 17H27.
Queens of the Dead defende a narrativa zumbi com ironia e verdade

Na teoria, Queens of the Dead parecia fadado à autoparódia. O filme coescrito e dirigido por Tina Romero, filha de George A. Romero (1940-2017), oferece uma comédia de zumbis cheia de piadas internas tanto do universo queer televisivo quanto dos próprios filmes de Romero pai. O que se vê na tela, porém, para além de praticar o bom escracho, é um pequeno exercício de cinema de gênero, de modulação e de discurso que se mostra capaz de atualizar a metáfora sociopolítica dos mortos-vivos, de onde George Romero parou. 

Ainda que sejam benquistos por críticos e cinéfilos, os filmes tardios de Romero pai entre Terra dos Mortos (2005) e A Ilha dos Mortos (2009) não deixaram maior pegada cultural, muito pelo fato de o subgênero do horror - cuja fundação Romero cimentou - ter se saturado na virada do século, entre games, quadrinhos e séries de TV. Tina Romero entra nessa seara num momento em que a própria ideia de paródia de zumbis parece antiquada, duas décadas depois do lançamento de Todo Mundo Quase Morto (2004).

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Por outro lado, a favor de Queens of the Dead, talvez a distância dos anos já permita que esse filme de baixo orçamento seja feito sem amarras e recebido sem grandes pré-julgamentos - é o perfil da maioria dos terrores produzidos e distribuídos pelo Shudder, que bancou esta estreia em longas de Tina Romero. A trama, encerrada em três ou quatro cenários, denota as limitações de orçamento: enquanto preparam um baile de drags no Brooklyn que pode render um bom faturamento numa noite qualquer, as donas do clube precisam se juntar às queens do título para sobreviver a uma impensável epidemia zumbi.

A homenagem que Tina presta ao pai, nesses quase dez anos desde a morte de Romero, flutua entre a reverência e a irreverência. A maquiagem cinza quase azulada dos zumbis e a participação especial de Tom Savini respondem pela paródia, enquanto toda a construção do drama em torno do enfermeiro negro (vivido por Jaquel Spivey) numa jornada silenciosa por autoestima ecoa a revolucionária escolha de Duane Jones para protagonizar em 1968 A Noite dos Mortos-Vivos, no auge do movimento negro americano por direitos civis.

Por óbvio, os tempos são outros, embora a luta contra o racismo permaneça. Queens of the Dead concilia essa batalha à defesa da representatividade trans; a maioria do elenco é formada por pessoas queer ou trans, que tratam os códigos da comunidade com o mesmo escracho com que o filme adere às regras do horror de zumbi. Parece relevante frisar aqui que Tina Romero não procura encerrar seu filme em torno do panfleto político - mesmo os monólogos edificantes são dados com consciência do ridículo - e sim usar as idiossincrasias da subcultura drag em chave cômico-emotiva a fim de normalizá-las, de dentro para fora.

Os mortos-vivos entram aí, então, como o clássico emblema da alienação (uma piada interna recorrente associa zumbis a influencers digitais e hipsters do Brooklyn) mas principalmente como figurantes num teatro do absurdo em que o próprio horror corporal se esvazia de medo e repulsa. Esvaziado está, não restam dúvidas, dado que consumado e consagrado em centenas de filmes de zumbis. E esvaziado também na medida em que a transformação do corpo se humaniza e se normaliza no universo trans, onde reivindicar o direito de mudar o próprio corpo pode se tornar um ato de resistência e consciência política.

É nessa modulação que Queens of the Dead se descobre capaz de operar, ao mesmo tempo, tanto a ironia quanto a sinceridade em relação ao universo que retrata. Estamos diante de um filme que só poderia existir como paródia, mas ao mesmo tempo Tina Romero parece invulnerável à armadilha - que ademais vitima filmes todas as semanas na epidemia de cinismo do século XXI - de se encerrar na ironia e ser incapaz de transcendê-la.

Queens of the Dead usa a seu favor tanto a decrepitude das histórias de zumbi quanto o próprio drama exagerado que populariza as performances drag. Quando Jaquel Spivey ou Nina West (não por acaso, atriz ex-competidora de RuPaul’s Drag Race) se esgoelam de chorar diante do pesadelo zumbi, isso cumpre uma vocação para o escracho e ao mesmo tempo o imuniza, porque afinal existe uma verdade na atuação over que é própria da subcultura drag. A despeito das evidentes limitações de seu filme, é assim que Tina Romero defende seu território e seu legado: com a autoridade das pessoas que, em nome da sobrevivência, tomaram a linguagem do ultraje para si.

Nota do Crítico

Queens of the Dead

2025
99 min
Classificação: 16 anos
Direção: Tina Romero
Roteiro: Tina Romero
Elenco: Tom Savini, Jaquel Spivey, Nina West
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