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Crítica

Que Horas Ela Volta? | Crítica

Anna Muylaert enfim acerta o equilíbrio entre a comédia de tipos e a crônica social, em filme de "schadenfreude do bem"

Marcelo Hessel
28.08.2015, às 14H08

Embora a torcida já faça de Que Horas Ela Volta? um favorito antecipado ao Oscar, motivada pela boa acolhida em Sundance e Berlim, o filme brasileiro não é um objeto raro nas telas. Sua trama sobre jogos domésticos de poder já foi vista em anos recentes nesses mesmos festivais, em filmes como o chileno A Criada ou o peruano Casadentro. A subserviência afetiva que se nota nas relações de trabalho do lar (da qual o próprio cinema brasileiro já tratou recentemente no documentário Doméstica) infelizmente não é uma exclusividade nossa.

O que torna particular o filme de Anna Muylaert (Durval Discos, É Proibido Fumar) na comparação latinoamericana é a disposição franca para a schadenfreude - essa palavra alemã cada vez mais presente no nosso vocabulário, que significa o prazer ("freude") de ver o prejuízo ("schaden") de outras pessoas. Em Que Horas Ela Volta?, Muylaert faz novamente a combinação que se tornou marca do seu cinema - a comédia de tipos, essa grande tradição do cinema nacional, misturada com crônica social - para dar uma zoadinha na gente rica.

Regina Casé demonstra seu talento de atriz no papel de Val, empregada que trabalha há anos para uma família de elite em São Paulo. Ela não vê sua filha há uma década, e Val inconscientemente a substituiu pelo adolescente que ajudou a criar como doméstica (daí o título em inglês do filme, "a segunda mãe"). Pois quando a jovem, Jéssica (Camila Márdila), sai do Pernambuco para prestar vestibular em São Paulo, o reencontro com a mãe se transforma numa revolução de classe dentro do casarão.

Dos filmes da diretora, Que Horas Ela Volta? talvez seja o mais bem resolvido nesse equilíbrio entre o humor de tipos e a crônica dramática. Embora sua atuação traga muito de alívio cômico, Regina Casé foge do estereótipo da nordestina que mastiga bordões e respostas rápidas como um João Grilo. Já Camila Márdila, bastante à vontade em cena, interioriza a indignação, quando sua atuação poderia cair fácil na chave adolescente-problema.

É na vilanização que Muylaert se permite ser mais caricatural, não apenas na caracterização de patroa megera de Karine Teles - quase uma madrasta Disney - mas também no tipo débil do pai da família, feito por um Lourenço Mutarelli que finalmente encontrou um personagem à altura da vocação do escritor-ator para papéis de autocomiseração.

O fato de Que Horas Ela Volta? ser um filme muito bem encenado entre tempos mortos e aproximações e distanciamentos (o vaivém na cozinha, nos corredores entre os quartos, a forma como as pessoas se isolam e se marginalizam embora dividam o mesmo teto) é o que permite que Muylaert se entregue a essa schadenfreude sem medo de ser só a sádica da vez (não estamos diante de um novo Relatos Selvagens, não chega a tanto). E quando então a brasileira decide jogar para a torcida em Que Horas Ela Volta? - e sem dúvida este é um filme de arquibancada - pelo menos o faz não só com convicção mas também com propriedade.

Que Horas Ela Volta? (2015)
Que Horas Ela Volta?
Que Horas Ela Volta? (2015)
Que Horas Ela Volta?

Ano: 2015

País: Brasil

Classificação: LIVRE

Duração: 114 min

Direção: Anna Muylaert, Anna Muylaert

Elenco: Regina Casé, Helena Albergaria, Karine Teles, Lourenço Mutarelli, Antonio Abujamra

Nota do Crítico
Ótimo

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