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Potiche - Esposa Troféu | Crítica

Para François Ozon, Catherine Deneuve personifica todas as tradições francesas que importam

Marcelo Hessel
23.06.2011
13h59
Atualizada em
21.09.2014
14h23
Atualizada em 21.09.2014 às 14h23

Potiche - Esposa Troféu é uma comédia ambientada no norte da França em 1977 que assume posições vanguardistas para aquela época, como os direitos das mulheres e do operariado, para defender uma tradição francesa que em 2011 está em crise, a do humanismo.

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Suzanne (Catherine Deneuve) é a esposa troféu do título, casada há 30 anos com o industrial (Fabrice Luchini) que administra a fábrica de guarda-chuvas do pai dela. Estoura uma greve, os funcionários fazem o patrão de refém, e Suzanne precisa intervir, em parceria com o político de esquerda (Gerard Depardieu) que fora seu amante na juventude. Com o tempo, a ex-dona de casa modelar, mãe e avó, descobre que tem vocação para liderar - e idade para amar.

Não é a primeira vez que o diretor François Ozon (Swimming Pool, O Tempo que Resta) joga com gêneros em um relato de época, mas Potiche não tem, como Angel, a intenção de desconstruir os gêneros. Aqui Ozon usa elementos da comédia screwball, da farsa política e do melodrama como uma homenagem bem humorada. É como se, ao voltar a 1977, fosse apagado o cinismo que, desde aquela época, só tem se generalizado na França e no mundo.

Isso não significa que Ozon volte no tempo com ingenuidade. As reviravoltas amorosas, principal marca da screwball presente em Potiche, mostram que os homens mais esclarecidos ainda são um pouco machistas e que as mulheres "exemplares" talvez não sejam tão exemplares assim. E se Suzanne começa o filme como a esposa vitimizada (é ótimo o diálogo em que o marido explica que mantinha o adultério em segredo para não constranger o marido da outra), aos poucos isso se desfaz.

É muito inteligente a forma como o roteiro fortalece as mulheres politicamente - são os anos do feminismo; na televisão os homens temem que elas roubem seus empregos - e ao mesmo tempo reforça-lhes a feminilidade. Ozon nega aquela imagem da ativista masculinizada que queima sutiãs; em Potiche, à medida em que assume o poder, Suzanne assume também sua condição de musa.

Não é por acaso que as cores setentistas, o clima de sing-along e, claro, os guarda-chuvas remetem ao musical que impulsionou a carreira de Deneuve, Os Guarda-Chuvas do Amor, de 1964. Ozon presta deferência à atriz, que com quase 70 anos ainda tem pernas para subir elegantemente numa cabine de caminhão, como se ela personificasse todas as tradições francesas que importam.

No fim das contas, Potiche não professa só o humanismo da cartilha esquerdista, contrário às privatizações, em defesa da pequena indústria nacional (defesa hoje em crise no país porque se confunde com o protecionismo e a xenofobia), mas um humanismo do indivíduo. Ainda que muita gente veja Deneuve como uma instituição da França (que como toda instituição deve ser preservada) em Potiche ela é mais um ícone da independência, um símbolo liberal.

Potiche - Esposa Troféu | Cinemas e horários

Nota do Crítico
Ótimo