Filmes

Crítica

Ponto Cego

Diretor e atores fazem estreia impressionante em longa tanto real quanto poético

Julia Sabbaga
03.10.2018
16h28
Atualizada em
04.10.2018
11h37
Atualizada em 04.10.2018 às 11h37

Ponto Cego é um filme de estreias. A primeira aventura do diretor Carlos López Estrada, experiente em clipes musicais, em um longa, veio em parceria com os primeiros papéis principais de Daveed Diggs (conhecido na TV por Black-ish, mas mais amplamente por seu papel no musical Hamilton) e Rafael Casal (cujo maior papel foi em um episódio da série Rachel Dratch's Late Night Snack), que escreveram um roteiro baseado em suas vidas na cidade de Oakland. O resultado de um grupo de iniciantes é simplesmente impressionante. Apesar de sutis falhas, Ponto Cego é um filme cheio de energia, com um roteiro relevante e um desenvolvimento único.

Foley Walkers Studio/Divulgação

O longa conta a história de Collin (Diggs), um indivíduo que, em seus últimos dias em liberdade condicional, testemunha a morte de um negro pela polícia. O argumento já seria interessante por si só, mas o valor real do longa é saber desenvolver o impacto do evento no personagem de forma profunda e não imediata. O filme não se encaminha apenas com Collin revivendo o momento em sua memória e se vendo incapacitado de seguir em frente, mas se mostra mais humano por retratar que o acontecimento se passa e a vida continua. O evento serve como o ponto central para tratar diversos outros temas, o mais evidente sendo a gentrificação da cidade de Oakland, sem perder passo ou foco. Collin segue trabalhando como um funcionário em uma empresa de mudança com seu amigo de infância Miles (Casal) e convive com a disciplina da liberdade condicional, um ex-namoro e a transformação da cidade onde cresceu.

Os temas da violência policial, da desigualdade social e marginalização dos habitantes de Oakland rendem um drama intenso e entregam o desconforto necessário ao telespectador mas, surpreendentemente, Ponto Cego também rende momentos de risos altos. A química clara existente entre os dois protagonistas, amigos de infância, se reflete perfeitamente em trocas de olhares e movimentos naturais, e em sequências onde eles se complementam em freestyles de rap ou se distinguem por personalidades contrastantes: enquanto Collin é um funcionário tímido e disciplinado, Miles é extravagante e inconsequente. E apesar de uma performance muito válida de Diggs como o protagonista, o ator que se destaca em Ponto Cego é Casal, que retrata a personalidade extrema e maníaca de Miles com um carisma irresistível.

A direção de Estrada é outro acerto de Ponto Cego, principalmente por ser um dos elementos responsáveis por fazer do filme tão único. O diretor sabe construir bem momentos de tensão e humor, mas seu brilho principal vem de seu histórico com clipes musicais, e fica claro, por exemplo, em uma sequência que mostra um sonho de Collin. Complementando o valor musical do longa, os personagens, que cresceram na cultura do rap, dialogam em diversos momentos em freestyle, e ajudam o filme a caminhar e declarar suas questões principais através da música. Toda a tensão do trauma de Collin é resolvido, na última cena, deste modo, com um discurso na conclusão do filme que fica mais impactante pelo formato com o qual é entregue.

Não apenas relevante e atual, Ponto Cego é um forte acerto da equipe de cineastas e chega como um lançamento refrescante em cartaz. Tanto a estreia da equipe quanto a sua visão única são um presente ao espectador que procura novas histórias e novas maneiras de contá-las.

Nota do Crítico
Ótimo