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Poder Sem Limites | Crítica

Filme de super-heróis com estética documental ousa em buscar qualidades pouco exploradas nos gêneros

Érico Borgo
01.03.2012, às 20H00
ATUALIZADA EM 29.06.2018, ÀS 02H44
ATUALIZADA EM 29.06.2018, ÀS 02H44

É ótimo quando um gênero tradicionalmente avesso a novidades consegue entregar um filme surpreendente, que deturpa suas regras (ou expectativas). Poder Sem Limites (Chronicle, 2012), do diretor estreante no cinema Josh Trank (que co-escreveu o roteiro com Max Landis), é um desses casos.

Poder Sem Limites

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A produção emprega a estética da filmagem em estilo documental amador. Câmera na mão, tremida, operada pelos atores... normalmente uma muleta safada para justificar o baixo orçamento aliado a um suposto realismo que já não impressiona mais ninguém. Aqui, porém, a surpresa vem justamente do fato da estética ser uma opção e não uma máscara que encobrirá os defeitos e carências.

Poder Sem Limites, afinal, funcionaria como uma produção convencional. Mas a filmagem inicialmente amadora, com quadros que cortam as cabeças dos atores (que abundam no primeiro ato), dá uma proximidade que ajuda a entender os personagens. Andrew Detmer (Dane DeHaan), o principal deles, é o típico esquisitão nerd do colégio e lembra bastante o adolescente que filma sacolinhas esvoaçantes em Beleza Americana (tem até o problema com o pai). Seu primo metido a filósofo, Matt (Alex Russell), e o atleta Steve Montgomery (Michael B. Jordan), são mais populares, mas igualmente estereotipados dentro do universo das "High Schools" dos EUA que estamos tão habituados a ver nos cinemas.

A ação começa quando os três, durante uma rave, encontram um estranho buraco que leva a um artefato subterrâneo. Banhados por sabe-se lá o quê, eles começam a desenvolver poderes telecinésicos. O filme aí vira uma espécie de Jackass, com os moleques treinando suas recém-descobertas capacidades da maneira mais pueril possível: aplicando pegadinhas, se jogando coisas na cara, levantando a saia das meninas... exatamente o que adolescentes desmiolados fariam se tivessem tal oportunidade.

O desenrolar dos fatos é natural, verossímil e divertido - e a cinematografia acompanha. Conforme eles refinam seus poderes, começam até a manipular a câmera e o filme vai ganhando mais qualidade. Surgem também os efeitos especiais - ótimos - e fica claro que não estamos perante de um Atividade Paranormal 2, mas de algo mais perto de outro bom expoente do gênero, Cloverfield - O Monstro. E quando o clímax chega, fica a dúvida se a Warner Bros. precisa mesmo realizar uma adaptação para as telonas de Akira. A influência do animê e mangá de Katsuhiro Otomo é clara no trabalho de Trank, que a utiliza misturando câmeras de segurança, filmagens de celular, de notíciários em uma explosão de ação totalmente inesperada.

Ainda que pareça um pouco barata a princípio, a filosofia também tem papel importante no filme e revela-se, no decorrer da trama, mais que uma alegoria de diálogo. Matt começa discutindo o papel do indivíduo na sociedade, favorecendo o eu em detrimento do todo, mas logo abandona essa ideia, partindo para uma abordagem menos romântica do tema - ainda que prática e fundamentada. Andrew, por sua vez, tem problemas em lidar com seu superego. Há estofo e embasamento na história e as pistas do começo do filme servem justamente como um alerta para que tais elementos sejam percebidos. Ousado esse Josh Trank...

Poder Sem Limites desafia expectativas e, no caminho, prova que a fórmula batida do filme-de-origem-de-super-herói, pode também ser revista e que há muitos caminhos possíveis para o gênero, sem esquecer o mais importante deles: a profundidade emocional importa e quanto mais apego tivermos aos protagonistas mais doloroso será vê-los crescendo e enfrentando os dilemas do mundo real, deixando de ser "jackasses" para se tornar, para o bem ou para o mal, adultos.

Poder Sem Limites
Chronicle
Poder Sem Limites
Chronicle

Ano: 2012

País: Reino Unido, EUA

Classificação: 14 anos

Duração: 84 min

Direção: Josh Trank

Elenco: Dane DeHaan, Alex Russell, Michael Kelly, Michael B. Jordan, Anna Wood, Ashley Hinshaw, Joe Vaz, Luke Tyler

Nota do Crítico
Ótimo

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