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Planeta dos Macacos: A Origem | Crítica

Macacada reunida na reinvenção de um clássico

Érico Borgo
17.10.2014
13h48
Atualizada em
29.06.2018
02h44
Atualizada em 29.06.2018 às 02h44

Ainda que a American Humane Association exista desde a década de 1940, a empresa que outorga o selo "Nenhum animal foi ferido durante as filmagens" às produções em Hollywood não foi capaz de impedir, por exemplo, que um golfinho fosse abatido a tiros de verdade em Flipper (1963). Se depender da Weta Digital de Peter Jackson esses dias de crueldade podem ficar definitivamente para trás.

Planeta dos Macacos - A Origem

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Planeta dos Macacos - A Origem

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Planeta dos Macacos - A Origem

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Em Planeta dos Macacos: A Origem (Rise of the Planet of the Apes), prelúdio à conhecida série de ficção científica, a companhia de efeitos visuais realiza um dos mais impressionantes feitos de computação gráfica já vistos nas telas. Cria chimpanzés, orangotangos e gorilas extremamente realistas, que chegam em alguns momentos a fazer o espectador se perguntar se aquilo é mesmo uma criação digital ou um animal de verdade.

Menos duvidoso é o protagonista, Cesar. O supermacaco inteligente que batizava o título anterior do filme (Caesar: Rise of the Apes) sofre do chamado "vale da estranheza", termo cunhado para descrever a sensação que se tem ao experimentar algo muito próximo do real, que ao mesmo tempo percebe-se como uma criação artificial. Mas não é possível ter certeza se a sensação de que algo está errado vem do construto 3D ou da impossibilidade natural da criatura, que "respira" graças à tecnologia da Weta mas, muito mais importante, à entrega de Andy Serkis.

O olhar humano que se percebe através das feições símias de Cesar causa uma mistura de fascínio e puro terror (e não só o dele... o macaco com a cicatriz é talvez o monstro mais assustador do cinema recente). Serkis, ator que ficou famoso ao viver Golum em O Senhor dos Anéis e que se especializou na técnica da captura de performance, tendo atuado desde então em King Kong e Tintim, é certeiro no equilíbrio entre humanidade e selvageria que dá ao personagem. Seu Cesar é um pit-bull... um animal dócil e companheiro, mas que pode provar-se uma ameaça explosiva em segundos.

Com tal performance no centro do palco, deveria ter sido fácil para James Franco, Freida Pinto, Brian Cox, Tom Felton e David Oyelowo reagir ao trabalho de Serkis... mas os personagens humanos do filme curiosamente parecem menos realistas que o macaco. Felizmente, o roteiro dá pouca importância a eles da metade para o fim, deixando a macacada brilhar sozinha.

John Lithgow, por sua vez, tem as melhores cenas do filme fora do núcleo símio. É a doença de seu personagem, o Mal de Alzheimer, afinal, que motiva seu filho (Franco) e realizar experiências genéticas em macacos. Cesar é o resultado de um desses testes. É também o pai, um erudito, quem batiza o pequeno chimpanzé como o ditador romano. Em sua cabeceira repousa Julio César, a obra de William Shakespeare - e encontra-se nesse ponto da trama outro dos melhores momentos da produção. Cesar tem inicialmente muito mais de Marcus Brutus, o centro das atenções da peça do escritor inglês, do que traços do ditador. Em meio à ação e ao suspense, afinal, são os conflitos entre honra, lealdade à raça e amizade - que encontram paralelos nos dilemas de Brutus - que movem o protagonista de O Planeta dos Macacos: A Origem.

Julio César, general que se tornou conhecido com um dos maiores da histórias, só aflora no herói no terceiro ato. A sequência da batalha da ponte Golden Gate é especialmente brilhante. Na organização de seu exército e nas táticas de César encontra-se a estratégia romana de guerra. Há lanceiros, formações defensivas (o ônibus é a versão moderna do Testudo) e um flanqueamento por três pontos que deve empolgar quem gosta de táticas militares.

Trabalhando a partir do roteiro de Rick Jaffa e Amanda Silver, o diretor Rupert Wyatt (The Escapist) transforma a saga iniciada em 1968 em Planeta dos Macacos em algo novo e seu. O reinício ao mesmo tempo homenageia os filmes originais e busca caminhos inéditos para a franquia, jamais parecendo desesperado por continuações ou sequências (ainda que deixe ganchos que vão ao encontro com o que sabemos da série). Wyatt é especialmente bem-sucedido nas sequências em que o drama funciona como um filme de cadeia. Sem diálogos, o diretor consegue apresentar a complexa dinâmica do abrigo para animais de maneira totalmente visual, uma arte perdida no verborrágico e superexplicativo cinema de hoje.

Esse talento, aliado às inteligentes sequências de ação, ao visual e ao trabalho de Serkis resultam em uma produção ao mesmo tempo divertida e dotada de níveis de significado. Trata-se da desejada abrangência que Hollywood tanto procura. Ironia pura, considerando que o estúdio responsável, a 20th Century Fox, até o ano passado era o campeão da imbecialização dos blockbusters. Considerando Planeta dos Macacos: A Origem e X-Men - Primeira Classe, Parece que alguém aprendeu a lição por lá...

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Nota do Crítico
Ótimo