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Crítica

Planeta dos Macacos: A Guerra | Crítica

Filme de Matt Reeves vai muito além da promessa de conflito do título

Natália Bridi
04.08.2017
10h22
Atualizada em
04.08.2017
10h59
Atualizada em 04.08.2017 às 10h59

Ironicamente, Planeta dos Macacos é uma das franquias mais humanas da cultura pop. Sua discussão sensível sobre evolução, intelecto e dominação toca fundo nas falhas da humanidade. A ascensão dos símios e a decadência dos homens leva à reflexão sobre esses erros e a uma torcida sincera contra a própria espécie.

Em Planeta dos Macacos: A Guerra, Matt Reeves conclui o prelúdio para a história do filme de 1968 (baseado no livro do francês Pierre Boulle) com as mesmas urgências dos longas anteriores (A Origem, de 2011, e O Confronto, de 2014). O tom, porém, é diferente, em uma mistura bíblica de conflito e recomeço. É o ápice da evolução de César, mais articulado e calejado pela responsabilidade de proteger o seu bando. Os símios vivem com medo, reféns de um combate que não parece ter data para acabar.

O avanço da tecnologia de captura de performance e da computação gráfica tornam a experiência visceral. É possível ver Andy Serkis nos olhos de César e, ao mesmo tempo, esquecer completamente do elaborado processo necessário para que o personagem ganhe vida. O que se vê é de fato um chimpanzé que ama sua família, precisa guiar um povo e vencer um conflito na busca por uma vida civilizada. Serkis transcende camadas de equipamentos e entrega uma emoção genuína, com um grau de expressão e domínio do corpo impressionantes.

O peso das atuações em Planeta dos Macacos: A Guerra também está no elenco de apoio por captura de performance - o sábio orangotango Maurice (interpretado por Karin Konoval), os guerreiros Rocket e Luca (Terry Notary e Michael Adamthwaite) e o novato Bad Ape (um timing cômico preciso de Steve Zahn) - e no lado humano do conflito: a jovem Nova (Amiah Miller) e o Coronel (Woody Harrelson). A menina representa o retorno a uma condição mais primitiva e inocente (o bom selvagem), enquanto o personagem de Harrelson vai ao coração das trevas encontrar o Coronel Kurtz de Marlon Brando para mostrar a decadência do homem civilizado.

A influência de filmes como Apocalipse Now, A Ponte do Rio Kwai e Os Dez Mandamentos é explícita. Nessa amálgama de gêneros, Reeves, que assina o roteiro com Mark Bomback, conta uma história épica sem cair em maniqueísmos e vai muito além da promessa se guerra do título. O Coronel não é mero vilão na sua oposição a César, assim como o herói não é perfeito ou infalível. O encontro dos dois expõe a natureza complexa que determina a “humanidade” na busca pela sobrevivência. Relações embaladas com imponência pela trilha de Michael Giacchino, que alterna brutalidade e leveza em uma jornada de muitas camadas.

A trama emocional de A Guerra vem acompanhada de sequências de ação grandiosas. Reeves prova que sabe não só como usar todo o espaço da tela, mas posicionar sua câmera de forma a descentralizar o olhar do espectador. Mesmo quando trabalha com bandos, a ação não se torna maçante e nem perde o foco. A câmera acompanha os personagens, sem que a vida se perca em meio a tiros e explosões. O ritmo é construído alternando tocaia e conflito, drama e humor, em uma composição que nunca perde a força - as duas horas e vinte minutos do longa passam voando.

Planeta dos Macacos: A Guerra é uma experiência cinematográfica de qualidade técnica e alcance dramático. É o retorno do cinema clássico em embalagem tecnológica, feito para entreter, mas sem menosprezar seu público. A história de César não vai embora com o rolar dos créditos. 

Planeta dos Macacos: A Guerra
War for the Planet of the Apes

Ano: 2016

Classificação: 14 anos

Duração: 142 min

Direção: Matt Reeves

Roteiro: Mark Bomback, Matt Reeves

Elenco: Andy Serkis, Gabriel Chavarria, Woody Harrelson, Steve Zahn, Karin Konoval, Terry Notary, Ty Olsson, Judy Greer, Max Lloyd-Jones, Devyn Dalton, Sara Canning, Michael Adamthwaite, Aleks Paunovic, Alessandro Juliani, Toby Kebbell, Amiah Miller, Gabriel Chavarria, Chad Rook, Timothy Webber, Roger R. Cross, Mercedes de la Zerda

Nota do Crítico
Excelente!