Peterloo

Créditos da imagem: Peterloo/Divulgação

Filmes

Crítica

Peterloo

Épico histórico de Mike Leigh ironiza a pompa e circunstância britânica em construção teatral

Natália Bridi
08.09.2018
18h15
Atualizada em
09.09.2018
17h06
Atualizada em 09.09.2018 às 17h06

Peterloo carrega sua ironia intrínseca já no título, um trocadilho com Waterloo, onde os britânicos derrotaram as tropas de Napoleão. Essa história, porém, não é sobre as glórias do Reino Unido, mas sobre um grande erro. Em 1819, uma manifestação pacífica em Manchester a favor da reforma parlamentar foi transformada em um massacre.

Mike Leigh assume a narrativa deixando claro o ponto de vista desde a primeira cena. Entre explosões e feridos, um jovem corneteiro do exército busca o seu caminho para casa. Lá encontra uma realidade de muitas horas de trabalho e pouca comida na mesa. Enquanto isso, o parlamento discute a bonificação do Duque de Wellington e magistrados se preparam para conter uma grande ameaça ao império britânico: o desejo do homem comum.

A construção desse contexto é demorada, tempo que serve à trama, mas é igualmente cansativo. A retórica e a burocracia britânica são importantes peças do Massacre de Peterloo e Leigh toma todo tempo necessário para escancarar o ridículo de uma nação educada e cheia de bons modos, mas incapaz de sentir empatia. Assim, a câmera aproveita cada segundo de longos discursos, da superioridade que a palavra dá a quem julga saber usá-la. Aquele capaz de articulá-la, mesmo que não seja compreendido, detém o direito de fala e opinião.

Para amparar tantos discursos, Leigh usa a tela como uma pintura. Planos quase estáticos casam com a aura teatral do longa. Os personagens, deliberadamente posicionados, entram e saem dos cenários como se deixassem o palco. A montagem se limita a esse conceito, o que torna o ritmo do longa ainda difícil. A narrativa é construída em um crescendo - um fato leva a outro, que leva a outro até o massacre -, mas Peterloo ganha intensidade apenas no momento final. A recriação no terceiro ato, contudo, justifica as escolhas do diretor. Quando todos estão reunidos no campo de St. Peter em Manchester - povo, políticos, nobres, magistrados e empresários - cada ato de violência ganha importância.

“Algumas coisas vão melhorar, outras vão continuar iguais”, diz o tecelão para sua esposa. É a síntese do significado de Peterloo, entre os desejos por mudanças do povo e a ganância de quem detém o poder. A ironia é que, apesar de algumas melhoras, a natureza humana permanece a mesma, em 1819 ou 2018.

Nota do Crítico
Ótimo